domingo, 26 de abril de 2020

Decisões baseadas em evidências

"The fact that an opinion has been widely held is no evidence whatever that it is not utterly absurd" (Bertrand Russel)

"A lição sabemos de cor. Agora só nos resta aprender" (Sol de Primavera - Beto Guedes)

Esta semana a Alemanha começou a flexibilizar a quarentena, mas fez isso com base numa análise criteriosa e embasada em dados confiáveis sobre a situação da pandemia em cada região do país. Nada a ver com o que aconteceu nos Estados Unidos ou no Brasil. Nestes países os presidentes deram muitos palpites, mas nenhum deles era embasado na ciência, nos dados e nas evidências. Como disse  Bertrando Russel, "O fato de uma opinião ser amplamente divulgada e aceita, não é evidência que ela não seja completamente absurda".

O que vocês poderão constatar neste vídeo que compartilho aqui, feito por uma jornalista alemã da BBC, é que o sucesso da Alemanha no combate a pandemia deve ser creditado ao que chamamos de "decisões baseadas em evidências", e não nos achismos ou palpites de seus governantes.



Decisões baseadas em evidências é uma metodologia científica que surgiu na área da medicina, mas que rapidamente se espalhou para todas as áreas do conhecimento e que diz que nossas decisões deveriam se basear num pensamento crítico sobre as informações que colhemos e nos melhores dados que consigamos recolher e não em nossas crenças ou mitos.

Parece óbvio, mas como diria Einstein, "as ideias geniais são óbvias". São ideias que conseguem reunir o conhecimento de uma época de uma maneira simples e objetiva e, quando a ouvimos, dizemos que era óbvio enunciá-las. Só que ninguém tinha feito isto antes... Por isto são geniais. 

E o que a Alemanha fez foi exatamente isto: reuniu dados e informações precisas sobre a evolução da pandemia, identicando cada bairro ou quarteirão mais infectados, quantos leitos de UTI estavam disponíveis em todo o país através de dados coletados online de TODOS os hospitais do país e do celular de todas as pessoas infectadas! Além disso é o país com a maior taxa de testes por habitante em todo o planeta, o que está permitindo monitorar a disseminação da pandemia com base em dados concretos e atualizados.

Em resumo, a Alemanha, ao invés de atacar os cientistas, como fazem Trump e Bolsonaro,reuniu competências para enfrentar a crise e está demonstrando ao mundo como devemos tomar decisões a colocá-las em prática. Não se trata principalmente de dinheiro, mas de mobilizar e colocar a inteligência a serviço da solução de problemas complexos.

A lição está aí. Agora só nos resta aprender...

terça-feira, 17 de março de 2020

Nada será como antes


Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de vocês?
Sei que nada será como antes, amanhã ou depois de amanhã
(Nada será como antes, Milton Nascimento e Beto Guedes)


O mundo já viveu guerras e outras crises, mas nenhuma como esta. A crise de 2008 e o crash da bolsa americana em 1929 afetaram basicamente o setor financeiro e poucos países. Os reflexos se fizeram sentir em outros países e setores, mas de forma mitigada e em diferentes momentos do tempo. Outros vírus se disseminaram pelo mundo, mas de forma menos intensa e rápida e com muito menos impacto econômico. É a primeira vez que vivemos uma crise global, com impactos na vida do dia a dia de mais de 6 bilhões de pessoas. E sem escalonamento no tempo. Todos vivenciando a crise no mesmo tempo! 

Ainda é cedo para entendermos o que isto vai mudar de forma definitiva em nossas vidas. O apagão elétrico no Brasil nos ensinou a gastar menos energia (apagar a luz quando não estamos no local, diminuir o uso do micro ondas...). E agora?

Acredito que podemos identificar pelo menos três tendências muito claras:

1. Intensificação do digital
Uma primeira consequência, bem óbvia, é uma aceleração da digitalização de nossas vidas. Mesmo setores com baixo índice de digitalização, como a educação, vão dar grandes passos nessa direção.

2. Volta ao básico
Outro aprendizado, paradoxalmente, será uma volta ao básico: preparar sua própria comida, ter uma horta... As pessoas vão ter mais tempo para si mesmos e sua família, com tudo de bom e ruim que isto traz. Vamos ter que aprender a usar melhor nosso tempo, fora da roda viva infernal na qual transformamos nossas vidas. Muitos de nós não sabem mais ficar quietos em casa, pensar na vida, baixar o ritmo. Vamos ter que aprender...


3. Mudanças na economia
Mas o maior impacto vai ser na economia. A recessão que vem atrás do vírus é de uma dimensão nunca vista na história da humanidade. Não afetará alguns países, de forma diferenciada na intensidade e no tempo, como as outras. Será ao mesmo tempo, em todos os países, e de forma devastadora.

Pensem nas conexões: os bares e restaurantes que estarão fechados empregam 10% da força de trabalho nos Estados Unidos e são mais de 1 milhão no Brasil! Sem os clientes pagando, os restaurantes não podem comprar de seus fornecedores, pagar os alugueis. Os motoristas de Uber vão ter menos trabalho, o Airbnb vai gerar menos renda para as pessoas, que vão ter menos dinheiro para consumir... Pior, todos que dependem do seu próprio trabalho: pequenos negociantes, dentistas, profissionais liberais, vão ter uma queda brutal e repentina em suas rendas. E tudo isto em escala global!

O "mercado" não vai conseguir regular isto! Vai ser preciso uma forte intervenção do Estado. Mais do que nunca a ideia de uma renda mínima universal vai ficar clara. Assim como foi feito com os bancos, no passado, os governos vão ter que ajudar os pequenos comerciantes e os trabalhadores por conta própria a chegar até o final do mês. As medidas econômicas tradicionais não serão suficientes, vamos ter que ser criativos. Os antigos modelos vão ter que ser repensados. 

Vão ser momentos intensos, mas acredito que vamos mostrar todo o potencial de superação de crise que temos. Já fizemos isto antes e vamos fazer agora. Toda crise é também uma oportunidade. As redes vão nos ajudar a encontrar e construir novos caminhos. As aulas não vão se limitar ao espaço da escola, os negócios vão ser reinventados usando as novas tecnologias, e mais do que nunca vamos entender por que devemos investir em ciência e tecnologia para preparar não apenas nosso futuro como nosso presente. 

Chegou a hora de fazer diferente! Como diria Einstein, "as coisas não mudam se sempre fazemos o mesmo. A crise traz progresso e a criatividade nasce da angústia. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias". Sem crise não aprendemos, e é na crise que aflora o que temos de melhor e pior, ajudando a separar o joio do trigo. 

Nada será como antes. Vamos fazer com que este depois seja muito melhor?


terça-feira, 3 de março de 2020

Como combater o desperdício de comida? Redes!

Pelos cálculos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) anualmente 1,3 milhões de toneladas de produtos alimentícios são desperdiçados em todo o mundo. No Brasil, de acordo com o IBGE, são descartadas 41 mil toneladas de comidas todos os anos (veja aqui).

Todo mundo sabe que tem um monte de gente (restaurantes, feirantes, produtores) que não sabe o que fazer com a comida que eles consideram inadequada para vender e um monte muito maior de gente que poderia aproveitar esta comida. A grande dificuldade é fazer o casamento entre estas duas pontas, juntar os que querem a comida com os que não sabem o que fazer com ela. 

Uma empresa nos Estados Unidos resolveu fazer disso um negócio: Misfits Market (misfits = desajustados, rejeitados). Ela recolhe a comida que os restaurantes, produtores e feirantes acham que não vão conseguir mais vender e vende para quem quer pagar até 40% mais barato. E ainda garante a qualidade: são produtos orgânicos e com pequenos "defeitos" na aparência. 

Resolvemos experimentar e estamos encantados (vejam a foto)!

Toda semana chega esta caixa cheia, com diferentes frutas e legumes, super saborosos. O modelo de negócios da empresa a faz ganhar nas duas pontas: os produtores pagam uma pequena quantia para eles recolherem os produtos que eles não querem mais e os consumidores pagam para receber estes produtos em casa.

Assim como o UBER, o Airbnb, e tantas outras plataformas de negócio, a Misfits Market usa a ciência das redes para agregar valor para todos: produtores, vendedores e consumidores. Uma nova forma de intermediação onde você não é mais proprietário ou dono dos carros, dos imóveis ou da comida...

As empresas e gestores tradicionais, públicos ou privados, que ainda não entenderam a nova lógica da economia digital em rede precisam mudar seu mindset, sua forma de pensar e de enxergar a realidade.

Se você quer saber mais sobre o assunto, venha conversar com o CRIE (Centro de Referência em Inteligência Empresarial). VIsite nosso site e o site dos dois cursos de Pós Graduação Lato Sensu: o MBKM (Master on Business and Knowledge Management), Pós Graduação em Gestão do Conhecimento e o WIDA (Web Intelligence and Digital Analytics), Pós Graduação em Big Data Estratégico. As novas turmas começam dia 14 de março e todos podem assistir a aula inaugural. Para isto devem contactar a Paula Salgado (paula@crie.ufrj.br).

Nos vemos por lá!






segunda-feira, 2 de março de 2020

Tempo de travessia

"Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha." (Fernando Pessoa)

"Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver" 
(Travessia - Fernando Brant e Milton Nascimento)


Em 1955, quando Einstein morreu, seu cérebro foi dissecado por uma equipe comandada pelo patologista da Universidade de Princeton, Thomas Harvey, para tentar descobrir o que havia de especial no cérebro de um homem que foi considerado um dos gênios do século XX. E o resultado foi decepcionante: o cérebro de Einstein era igual ao nosso...






O cérebro humano tem sido muito estudado e o que as pesquisas estão demonstrando é que ele, mais do que um centro difusor de ideias, é uma esponja que absorve e processa milhões de informações do ambiente onde ele vive. 

Durante séculos pensamos nos "gênios" como alguém fora do seu tempo e espaço. Alguém com qualidades únicas, com um contato direto com Deus... Hoje sabemos que os gênios são pessoas fora da curva, mas que construíram sua genialidade imersos em um ambiente que favorecia e estimulava sua criatividade. E que, sobretudo, possuíam uma rede social que permitiu que elaborassem suas ideias revolucionárias.

Em artigo recente, intitulado "Einstein's genius wasn't in his brain; it was in his friends" (A genialidade de Einstein não estava no seu cérebro, mas nos seus amigos"), o antropólogo social Sal Restivo mostra que os gênios não aparecem aleatoriamente, mas em determinados ambientes chamados clusters, ou grupamentos sociais. 


O fato de que atores criativos se reúnem em grupo é conhecido de longa data. O que as pesquisas mais recentes em ciência das redes estão mostrando é que grupos criativos aparecem de maneira previsível durante períodos de rápido declínio ou crescimento das civilizações. Também sabemos que novas ideias e tecnologias surgem simultaneamente em lugares diferentes e compartilham semelhanças ligadas ao espírito do seu tempo.

Um exemplo disto é a Bossa Nova, que surgiu no Brasil, na década de 60, durante um período de crise. Sem a reunião daquele grupo de artistas que se influenciaram mutuamente, não teriam aparecido gênios como Tom Jobim, Chico Buarque e João Gilberto.  

Esta descoberta sobre o papel dos clusters e dos ambientes criativos no surgimento de ideias inovadoras o no desenvolvimento econômico e social é importante porque nos traz a responsabilidade de pensar em como devemos construir nosso futuro. Se continuássemos presos a ideia de que os gênios surgem aleatoriamente, e graças exclusivamente aos seus dotes pessoais, ficaríamos esperando que eles nascessem e não teríamos nada a fazer a não ser rezar. A ciência está mostrando, ao contrário, que podemos criar ambientes que favoreçam o desenvolvimento.

E foi exatamente pensando em formar pessoas capazes de construir este novo mundo que o CRIE (Centro de Referência em Inteligência Empresarial) organizou dois cursos de Pós Graduação Lato Sensu: o MBKM (Master on Business and Knowledge Management), Pós Graduação em Gestão do Conhecimento e o WIDA (Web Intelligence and Digital Analytics), Pós Graduação em Big Data Estratégico. As novas turmas começam em março e todos podem assistir a aula inaugural. Para isto devem contactar a Paula Salgado (paula@crie.ufrj.br).

O futuro não está escrito nas estrelas. Ele depende de nós, mas precisamos estar abertos para repensar nossas velhas crenças, que nos impedem de ver as transformações que estão ocorrendo no mundo. Porque, como diria o poeta, “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia”... 

Vamos fazê-la juntos?


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Há ordem no caos?

"O caos é uma ordem por decifrar..."  (José Saramago)

Há ordem no caos da sociedade digital: quem sabe usar dados, informações e conhecimento toma melhores decisões e obtém melhores resultados.
Até hoje considerávamos que as condições para o sucesso de alguém eram sorte, talento, perseverança e trabalho duro. E, sobretudo, que o sucesso era algo individual. Estas qualidades é que faziam uma pessoa se tornar um grande artista, um excelente vendedor, jogador de futebol ou piloto de aviação.
Assim, por exemplo, o piloto alemão conhecido como “Barão Vermelho”, se tornou o piloto mais conhecido do mundo pelos seus feitos incríveis durante a primeira guerra mundial: sozinho ele abateu 80 aviões das forças aliadas! Mais impressionante ainda, quase um século depois seus feitos e seu nome continuam fazendo sucesso e sendo lembrados em todo o mundo. E se olharmos sua biografia vamos encontrar todos os atributos listados acima.

Parece que estes atributos são a fórmula para o sucesso... Mas, no entanto, existe René Fonck. Este piloto francês possui todas estas qualidades e ele teve um desempenho muito superior ao Barão Vermelho: sozinho ele abateu 127 aviões alemães!





Por que o Barão Vermelho é que fez sucesso? Quais são as leis que explicam porque um piloto, um artista ou um candidato conseguem sucesso e outros não, mesmo tendo mais talento, perseverança, sorte e trabalho duro?
A ciência das redes, a partir de uma análise cuidadosa dos dados e da topologia das redes está encontrando novas respostas e os padrões invisíveis por detrás dos dados e da estrutura das redes. As redes são decisivas para a economia, a comunicação e o compartilhamento do conhecimento. Na verdade, não se pode entender a vida do século XXI sem compreendê-las e usá-las. E esta ciência já mostrou que o sucesso não é uma questão apenas de um indivíduo e sua performance, mas depende de como as REDES são usadas. O Barão Vermelho soube construir uma rede melhor para divulgar seus feitos e ficou mais famoso, mesmo tendo um desempenho inferior.
Precisamos entender que existem padrões e comportamentos perfeitamente previsíveis no meio deste aparente caos e que eles afetam a maneira como todos nós trabalhamos e vivemos.
Para formar profissionais que conheçam e saibam agir e atuar na Sociedade do Conhecimento em Rede, o CRIE (Centro de Referência em Inteligência Empresarial) organizou dois cursos de pós-graduação Lato Sensu: o MBKM (Master on Business and Knowledge Management) e o WIDA (Web Intelligence and Digital Analytics).
Para conhecer um pouquinho mais sobre este assunto, venha participar da palestra "Gestão Data-Driven", com os Profs. Marcos Cavalcanti, Luciana Sodré Costa e Larriza Thurler, no dia 20/02,, às 12h30, na Fábrica de Startups, no Centro do Rio de Janeiro. A palestra é gratuita, mas para participar você deve se inscrever no site: 

Eu vou participar por vídeo conferência.

Nos vemos por lá!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Que mundo é este?

As cinco maiores empresas industriais americanas são a Exxon, cujo valor de mercado é de U$ 284 bilhões, Johnson & Johnson (U$ 280 bi), Procter & Gamble (U$ 230 bi), Coca Cola (U$ 213 bi), e Boeing (U$ 174 bi).

Semana passada o Google passou a marca de U$ 1 trilhão em valor de mercado! É a terceira empresa no mundo, em toda a história das bolsas de valores, a conseguir isto. As duas primeiras foram a Apple (que hoje vale U$ 1,4 trilhão) e a Microsoft (que hoje vale U$ 1,2 trilhão). 





Em resumo, o Google equivale às cinco maiores empresas industriais americanas. Juntas! E vale dez vezes mais do que uma empresa que sempre foi referência e modelo de gestão industrial: a General Electric, que vale U$ 100 bi...

Para entender este novo mundo e capacitar os profissionais para atuar nele, o CRIE (Centro de Referência em Inteligência Empresarial), da COPPE/UFRJ criou dois cursos: O MBKM (Master on Business and Knowledge Management), uma pós-graduação Lato Sensu em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial e o WIDA (Web Intelligence and Data Analytics), uma pós-graduação Lato Sensu em Big Data Estratégico. Os dois cursos, pela primeira vez, vão ter aulas conjuntas que se iniciam em março de 2020. 

Para o lançamento dos cursos, o CRIE está promovendo a palestra "GESTÃO DATA-DRIVEN". A palestra vai acontecer dia 20 de fevereiro, às 12h30, na Fábrica de Startups, no Centro do Rio de Janeiro. A palestra é gratuita, mas as pessoas devem se inscrever no site:http://www.crie.ufrj.br/destaque/gestao-data-driven-transforme-dados-em-conhecimento-estrategico/580

Eu vou participar por vídeo conferência. Nos vemos por lá!

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O medo de ser livre

 "O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier
livre para sempre estar onde o justo estiver" (Beto Guedes)

" A maior riqueza do homem é sua incompletude" Manoel de Barros


A maior transformação na minha vida ocorreu, provavelmente, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Além da transformação no corpo (barba começando a nascer, primeira ejaculação...) eu comecei a perceber que não tinha mais ninguém pra me salvar. Eu tinha que contar comigo mesmo para resolver meus problemas. 

Foi assustador. O aconchego do lar, da família, dos colegas do colégio, a crença em Deus (eu estudei num colégio católico) eram um manto protetor que me defendia dos monstros lá de fora. 

Ao mesmo tempo, e eu demorei a perceber isto, foi libertador. Se era eu que tinha que resolver meus problemas e lamber minhas feridas eu tinha que investir pesado em mim mesmo, estudar, conhecer as coisas e a mim mesmo, ser alguém melhor a cada dia...

Todas estas reminiscências me vieram a cabeça agora que estou pronto para partir para uma nova aventura na minha vida, num país que conheço pouco, estudando assuntos novos, tentando mais uma vez me reinventar. E que comecei a ler um livro instigante: A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper. 

Popper foi membro do partido comunista austríaco (eu também fui membro de uma organização de esquerda) e saiu do partido logo que percebeu que a intolerância e o totalitarismo não eram do "partido" ou das pessoas do partido, mas da ideologia que eles defendiam. E ele, que já era um dos maiores cientistas do século XX, passou a questionar duramente a intolerância, dando bases científicas à sua crítica.

Para ele " qualquer ideia de utopia é fechada. Sufoca todos que não compartilham desta utopia. A simples ideia de um modelo para a sociedade que não seja aberto e incompleto nos leva para o totalitarismo". 


O Brasil está vivendo um momento doloroso de transição para a sociedade do conhecimento imerso em uma polarização entre dois polos totalitários. Famílias e amigos brigaram e se separaram por causa da política. O que pouca gente se dá conta é que nada disto é novo. Durante a segunda metade do século XX muitos intelectuais como Popper e o escritor francês Albert Camus romperam com os partidos comunista e de esquerda por reconhecerem nesta ideologia o DNA do totalitarismo. Não se tratava de um desvio de algumas pessoas, mas de uma visão de mundo fechada, que não tolera o incompleto, a dúvida, o questionamento. 




Da mesma forma que os seguidores fanáticos do atual presidente, os seguidores do ex-presidente baniram da sua vida quem pensa diferente deles. Ambos têm medo de serem livres. Só as pessoas realmente livres não seguem nenhum guru nem ideologias. Pensam com suas próprias cabeças. 

Claro que isto é assustador e doloroso. Eu vivi isto na minha pré-adolescência. É muito mais confortável ficar protegido pelo manto da família, do partido ou da igreja. Achamos que as certezas trazidas por esta militância nos dá paz e aceitação quando, na realidade, nos traz a paz do cemitério, da vida não vivida, da negação de quem realmente somos. Esquecemos do que nos ensinou Oscar Wilde: "Seja você mesmo, todos os outros já existem"...

Aos que ainda ficam repetindo mantras religiosos ("lula livre", "bolsonaro for ever"...) eu diria: ousem ser livres! Só assim vocês realmente estarão "onde o justo estiver". Quem tem medo de ser livre vai ser sempre uma vaquinha de presépio, dizendo amém para seus gurus.

O futuro do presente não é o passado. A crise que vivemos é a crise que precede o novo, o futuro. Esta divisão entre "esquerda" e "direita" é o passado. Já estamos vivendo num mundo onde estes conceitos não dão conta de explicar a complexidade e a realidade. A ciência já sabe que os momentos mais interessantes para o progresso da humanidade são exatamente estes momentos onde o velho que resiste convive com o novo que emerge. E é nestas horas que mostramos quem realmente somos: pessoas livres ou pessoas presas ao passado e/ou ao dogmatismo. 

A escolha é sua. Eu já fiz a minha.