quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O medo de ser livre

 "O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier
livre para sempre estar onde o justo estiver" (Beto Guedes)

" A maior riqueza do homem é sua incompletude" Manoel de Barros


A maior transformação na minha vida ocorreu, provavelmente, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Além da transformação no corpo (barba começando a nascer, primeira ejaculação...) eu comecei a perceber que não tinha mais ninguém pra me salvar. Eu tinha que contar comigo mesmo para resolver meus problemas. 

Foi assustador. O aconchego do lar, da família, dos colegas do colégio, a crença em Deus (eu estudei num colégio católico) eram um manto protetor que me defendia dos monstros lá de fora. 

Ao mesmo tempo, e eu demorei a perceber isto, foi libertador. Se era eu que tinha que resolver meus problemas e lamber minhas feridas eu tinha que investir pesado em mim mesmo, estudar, conhecer as coisas e a mim mesmo, ser alguém melhor a cada dia...

Todas estas reminiscências me vieram a cabeça agora que estou pronto para partir para uma nova aventura na minha vida, num país que conheço pouco, estudando assuntos novos, tentando mais uma vez me reinventar. E que comecei a ler um livro instigante: A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper. 

Popper foi membro do partido comunista austríaco (eu também fui membro de uma organização de esquerda) e saiu do partido logo que percebeu que a intolerância e o totalitarismo não eram do "partido" ou das pessoas do partido, mas da ideologia que eles defendiam. E ele, que já era um dos maiores cientistas do século XX, passou a questionar duramente a intolerância, dando bases científicas à sua crítica.

Para ele " qualquer ideia de utopia é fechada. Sufoca todos que não compartilham desta utopia. A simples ideia de um modelo para a sociedade que não seja aberto e incompleto nos leva para o totalitarismo". 


O Brasil está vivendo um momento doloroso de transição para a sociedade do conhecimento imerso em uma polarização entre dois polos totalitários. Famílias e amigos brigaram e se separaram por causa da política. O que pouca gente se dá conta é que nada disto é novo. Durante a segunda metade do século XX muitos intelectuais como Popper e o escritor francês Albert Camus romperam com os partidos comunista e de esquerda por reconhecerem nesta ideologia o DNA do totalitarismo. Não se tratava de um desvio de algumas pessoas, mas de uma visão de mundo fechada, que não tolera o incompleto, a dúvida, o questionamento. 




Da mesma forma que os seguidores fanáticos do atual presidente, os seguidores do ex-presidente baniram da sua vida quem pensa diferente deles. Ambos têm medo de serem livres. Só as pessoas realmente livres não seguem nenhum guru nem ideologias. Pensam com suas próprias cabeças. 

Claro que isto é assustador e doloroso. Eu vivi isto na minha pré-adolescência. É muito mais confortável ficar protegido pelo manto da família, do partido ou da igreja. Achamos que as certezas trazidas por esta militância nos dá paz e aceitação quando, na realidade, nos traz a paz do cemitério, da vida não vivida, da negação de quem realmente somos. Esquecemos do que nos ensinou Oscar Wilde: "Seja você mesmo, todos os outros já existem"...

Aos que ainda ficam repetindo mantras religiosos ("lula livre", "bolsonaro for ever"...) eu diria: ousem ser livres! Só assim vocês realmente estarão "onde o justo estiver". Quem tem medo de ser livre vai ser sempre uma vaquinha de presépio, dizendo amém para seus gurus.

O futuro do presente não é o passado. A crise que vivemos é a crise que precede o novo, o futuro. Esta divisão entre "esquerda" e "direita" é o passado. Já estamos vivendo num mundo onde estes conceitos não dão conta de explicar a complexidade e a realidade. A ciência já sabe que os momentos mais interessantes para o progresso da humanidade são exatamente estes momentos onde o velho que resiste convive com o novo que emerge. E é nestas horas que mostramos quem realmente somos: pessoas livres ou pessoas presas ao passado e/ou ao dogmatismo. 

A escolha é sua. Eu já fiz a minha. 



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Por uma estratégia nacional de IA (inteligência artificial)

"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou...

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder" (Tempo perdido - Legião Urbana)


A rede Mc Donalds, só no Brasil, emprega o mesmo número de pessoas que a Shell, no mundo todo. Dentre as várias razões para isto, vale entender uma questão fundamental: não somos mais uma sociedade industrial. Somos uma sociedade de serviços, com uso intensivo de conhecimento: no Brasil, 70% do trabalho está no setor de serviços, contra 20% na indústria e 10% na agricultura. Isto significa que toda aquela propaganda na TV (agro é pop, agro é tudo...) é falsa. Serviço é que é "pop"...

As coisas estão mudando ainda mais. No século XX vivemos duas transformações importantes. Na primeira metade tivemos a automatização da agricultura e o fenômeno de urbanização: milhões de pessoas deixaram o campo para tentar viver e trabalhar nas cidades. E na segunda metade do século assistimos a automatização das indústrias e o crescimento do desemprego.


E agora, no século XXI? Quais são os nossos desafios? Os sinais são claros: depois da automatização do campo e da indústria, chegou a vez dos serviços.

De fato, a digitalização da economia e o uso intensivo da IA (inteligência artificial) está provocando a automatização de serviços que até hoje empregam grande número de trabalhadores: construção civil,  comércio (supermercados, mc donalds...) e serviços de tele atendimento.

Podemos assistir estas transformações no camarote, deixando o mercado decidir o que fazer. O resultado provável desta política será um grande desemprego e uma enorme tensão social.

Os principais países do mundo estão adotando outra estratégia: estão se preparando para surfar esta nova onda ao invés de serem engolidos por ela.

Mais de 20 países, dentre os quais os EUA, França, Canadá, Alemanha, Comunidade Europeia, Japão, China e Rússia definiram uma "estratégia nacional de IA".

Estas estratégias procuram lidar com os desafios trazidos pela digitalização e adoção em larga escala de IA de uma forma sistêmica, atacando em várias frentes ao mesmo tempo, de forma articulada.

Um consenso em todos os planos é a ênfase em formar pesquisadores e profissionais de alto nível em IA, mas isto é insuficiente. Precisamos nos preparar em outras áreas. 

Os franceses, por exemplo, definiram um programa para tornar a IA popular. A ideia é que todos os profissionais (médicos, advogados, engenheiros, micro empreendedores) precisam ter noções básicas de IA para serem competitivos e bons profissionais no século XXI.

Os japoneses estabeleceram cinco frentes de trabalho em seu programa nacional:
1) reforma educacional - para preparar as novas gerações para viver neste novo mundo
2) pesquisa e desenvolvimento - para não ficarem para trás nestas novas tecnologias
3) aplicações práticas de IA - para trazerem a IA para o dia a dia de todos os cidadãos (saúde, mobilidade, agricultura, energia, novos negócios)
4) "trust data" - como assegurar que os dados sejam confiáveis e utilizáveis por todos
5) IA ética e centrada no humano - como garantir que a tecnologia seja usada de forma a garantir a privacidade,  segurança, inovação e o bem estar de todos

Para mim está claro que esta não é apenas uma discussão sobre uma nova tecnologia, mas de uma revolução econômica, política e social. Precisamos criar um novo pacto social (renda mínima universal) e encontrar novos caminhos para a geração e o uso do conhecimento de forma que esta revolução seja mais inclusiva e benéfica para todos e não apenas para alguns.

Não será fácil nem de uma hora para outra, mas precisamos começar já.

Não temos tempo a perder...

sábado, 20 de abril de 2019

Tempo de travessia

"Não é a dúvida, mas a certeza que enlouquece" (“Ecce homo”, Friedrich Nietzsche)

Aprendi cedo duas coisas:
  1. que na vida tem hora pra tudo: hora de plantar e hora de colher; hora de falar e hora de ouvir; tempo para demolir e tempo de construir...
  2. sempre é tempo de duvidar, de questionar nossas próprias ideias. 
Meu avô me dizia que na vida a gente raramente acerta, mas em todas as outras ocasiões a gente aprende... Na verdade, a vida também me ensinou que só aprende quem está aberto para isto. Muitos preferem ficar presos às suas certezas e quem "se tem certeza" não aprende...

Acho que chegou a hora de virar a página de um tempo de certezas, do “nós contra eles” e da busca de salvadores da pátria. A hora é de construir: o novo, o futuro, o Brasil do século XXI. Só conseguiremos trilhar este caminho com desapego das velhas ideias e das pessoas que insistirão em tentar fazer reviver os velhos fantasmas do passado.



Porque, como diria o poeta, “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia”...
Bora?

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

As redes não são só uma nova forma de fazer política, mas de viver...

"Loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente da mesma forma" (Einstein)


Um dos raros consensos nesta eleição foi sobre o papel das redes sociais no resultado final. Se antes das eleições as pessoas apostavam no tempo de TV e nas velhas estruturas partidárias como decisivas para determinarem o resultado, depois delas ficou claro que o Brasil mudou. O vencedor não tinham nem tempo de TV nem partido, mas soube usar as redes sociais...

Desde junho de 2013 que estes sinais de mudança na política eram muito claros. Milhões de pessoas foram às ruas sem que nenhum meio de comunicação de massa tivesse sido utilizado e sem que nenhum analista político ou instituto de pesquisa fosse capaz de identificar as movimentações sociais que desembocaram naquelas manifestações gigantescas. 

Nossos óculos, nosso mind set, nossa maneira de ver o mundo estão viciados. Estamos com os dois pés na sociedade do conhecimento, digital e em rede, mas nossa cabeça continuar funcionando como se vivêssemos no século XX... Num mundo onde as informações chegavam até nós através dos filtros exclusivos dos grandes meios de comunicação de massa, quase sempre controlados por interesses particulares. Onde as novas descobertas científicas demoravam anos para serem incorporadas à enciclopedia Barsa e se popularizarem. Onde tudo dependia do Estado para existir: Educação? a solução é o Estado construir escolas e aumentar o salário dos professores; desemprego? cabia ao Estado promover o seguro desemprego e fazer políticas de geração de emprego....

Nos acostumamos a ouvir, durante quase um século, que a superação dos nosso problemas dependia quase que exclusivamente do Estado. E o resultado foi um Estado inchado, cheio de funcionários, caro e ineficiente.

E agora?

Na política, as pessoas organizadas em rede estão começando a encontrar novas formas de se organizar, deixando claro que as velhas estruturas partidárias não dão mais conta de expressar a diversidade de opiniões na sociedade. 


Na economia, as pessoas encontraram novas formas de gerar trabalho e renda, sem depender do Estado: o Uber, o AirBnb e as pessoas vendendo quentinha nas ruas são alguns das dezenas de exemplos de como o empreendedorismo pode existir, desde que o Estado não atrapalhe...

Na área social, as pessoas estão aprendendo a se organizar através de financiamentos coletivos (crowd funding), abaixo assinados e, em breve, através do block chain, para garantir que suas iniciativas buscando solidariedade entre as pessoas e suas causas possam ganhar vida e amplitude.

E na produção do conhecimento, as redes viabilizaram não apenas um acesso mais democrático e instantâneo à informação como estão propiciando novas formas de interação entre as pessoas, gerando novas formas de construção coletiva do conhecimento que estão tirando das escolas e universidades a exclusividade neste processo. 

Claro que nem tudo são flores... As redes também difundem com mais rapidez as notícias falsas, e podem contribuir para aumentar o controle do Estado sobre nossas vidas. Mas trazem também o antídoto para isto: as próprias pessoas podem desmentir as notícias falsas com mais rapidez e podem também controlar o Estado com mais facilidade. Como tudo na vida, as tecnologias não são boas ou ruins em si mesmas. Dependem do uso que delas fazemos.

Em resumo, o que estamos vivendo é uma revolução! Como toda revolução, não acontece do dia para a noite. É um longo processo, cheio de idas e vindas e muito aprendizado. Mas é irreversível! 



Para entender e participar desta revolução o Crie (Centro de Referência em Inteligência Empresarial) promove dois eventos esta semana: o V Seminário Big Data Brasil e o II Simpósio Internacional Network Science.
O Seminário Big Data Brasil é promovido em parceria com o ODI Rio (capítulo local da rede mundial do Open Data Institute de Londres) e com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. O II Simpósio Internacional Network Science é organizado com apoio do LerHuD – Laboratório em Rede de Humanidades Digitais do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento e Instituto de Educação e Pesquisa do Ministério Público do Rio de Janeiro (IEP-MPRJ).
Nestes eventos você vai poder conversar com algumas das pessoas que estão não apenas discutindo e pensando, mas fazendo as coisas acontecer nestas áreas. Os eventos são gratuitos, mas você precisa se inscrever.
V Seminário Big Data Brasil e II Simpósio Internacional Network Science
Dias: 6, 7 e 8 de novembro
Local: Auditório do MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro)
Av. Marechal Camara, 370 9º andar - Centro – RJ

Para saber mais e se inscrever:

http://bit.ly/bigdatabrasil
http://networkscience.com.br/ 


e nas redes sociais:https://www.facebook.com/sinetworkscience e twitter - @Isins2018

Vamos nessa? Um outro mundo e um outro país é possível. Só depende de nossa participação, não para continuar fazendo o que sempre fizemos, mas para fazermos diferente. Afinal, como nos lembra o Eistein, loucura seria querermos mudar fazendo tudo exatamente como sempre fizemos...



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Os extrovertidos que me perdoem...


"Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?" 
(Canção de Outono - Cecília Meirelles)

Empresas jornalísticas, de marketing, "fábricas" de software e outras que demandam criatividade de seus funcionários funcionam de forma irritantemente igual: espaços, abertos, sem paredes, onde todos seus funcionários podem se ver, conversar e interagir. Desde o início deste século este foi considerado o "ambiente ideal" para elas trabalharem. Nunca me vi trabalhando de forma eficiente num ambiente destes, mas como ninguém questionava esta unanimidade e eu sempre tive minha sala individual na Universidade, deixei este assunto para lá.
Até que recentemente caiu nas minhas mãos um estudo chamado "Coding War Games" (clique no link para acessar o estudo),  de Tom Demarco e Timothy Lister. Neste estudo eles avaliaram a performance de 600 programadores de mais de 90 companhias de informática. E constataram uma diferença significativa entre os profissionais: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, mais interessante ainda, as razões que normalmente são atribuídas àqueles de melhor desempenho, como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa, não explicavam o fenômeno.

Demarco e Lister perceberam que os melhores programadores tendiam a trabalhar em algumas empresas. Aprofundando sua investigação, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.

Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo eminentemente coletivo. E aí?

O cientista cognitivo David E. Meyer, diretor do Laboratório de cérebro, cognição e ação da Universidade de Michigan, nos dá uma pista. Segundo ele, "Quando se trata de qualquer operação não corriqueira, executar diversas tarefas ao mesmo tempo nos desconcentra, aumentando a chance de erro". Ou seja, a solução de problemas complexos exige concentração total. Na preparação deste trabalho, no entanto, quanto mais interagirmos com outras pessoas (de preferência com culturas e conhecimentos diferentes), mais estaremos criando as bases para um bom trabalho.

Não se trata de colocar uma coisa contra a outra. Precisamos das duas coisas: interação, troca, compartilhamento, mas também introversão, reflexão, introspecção. E temos que construir espaços e criar momentos onde estas duas situações possam acontecer.
Numa sociedade que valoriza cada vez mais a extroversão e a interação entre as pessoas, vale a pena parar para repensar nossos espaços de trabalho. Parafraseando Vinicius de Moraes, os extrovertidos que me perdoem, mas a introversão (também) é fundamental!




segunda-feira, 25 de junho de 2018

As certezas, os gurus e a loucura

"O que nos enlouquece não são as dúvidas, mas as certezas"... 
(Luiz Alberto Py - psicanalista)

"A maior riqueza do homem é sua incompletude" 
(Manoel de Barros - poeta)


Tenho uma péssima lembrança da minha primeira professora no colégio, Dona Marlene. Eu sou canhoto e era muito tímido e ela me fazia ir ao quadro, quase todos os dias, me obrigando a escrever com a mão direita, na frente de todo mundo. Era um desastre... 

Mas eu não me dobrei. Continuei escrevendo com a mão esquerda e desde então fiz um pacto comigo mesmo de nunca ser o que os outros queriam que eu fosse. Eu procuraria ser eu mesmo, ainda que isto me colocasse contra a maioria. 

Se por um lado isto sempre me ajudou a ter auto confiança, por outro me fez sempre achar que eu estava "incompleto", afinal se todos conseguiam escrever com a mão direita eu também deveria conseguir... Bem mais tarde é que eu fui perceber que, como diria o poeta, a nossa maior riqueza é nossa incompletude...

Quando nos achamos "completos" nos acomodamos, ficamos cheios de certezas, nos tornamos arrogantes e paramos de aprender. E a falta de curiosidade sobre a vida é a morte de um ser humano. 




Não admira, portanto, que um dos temas mais bem estudados pela psicanálise seja de como as certezas privam as pessoas de sua lucidez. Ao acreditarem cegamente em suas verdades, as pessoas se fecham para o outro, para as outras visões de mundo e se desconectam perigosamente da realidade. Como nos lembra o psicanalista Luiz Alberto Py, 
"Penso que sempre vale a pena valorizar o conhecimento dos fatos reais e entender a diferença entre uma constatação da realidade e uma mera opinião. É importante perceber com clareza a existência das armadilhas emocionais que, na nossa ambiciosa busca de certezas, nos levam a acreditar em ilusões como se fossem verdades inquestionáveis. Somente assim se torna possível evoluir na procura do conhecimento e também no aprimoramento da saúde mental".
Algumas pessoas não compreendem como muitos intelectuais persistem numa defesa cega de um ex-presidente da república condenado por corrupção. Muitas são as causas e os motivos desta idolatria, mas acredito que uma das razões principais é uma visão de mundo onde a dúvida é vista como sinal de fraqueza e as pessoas são julgadas pelo sua filiação à causa: se é do nosso partido é uma pessoa "perfeita", do bem, se não é do nosso grupo é uma pessoa do mal... Esta visão binária da mundo, que divide o mundo entre nós e eles, entre direita e esquerda é um dos principais entraves para o Brasil avançar rumo ao séulo XXI. Precisamos superá-la e uma das formas de se fazer isto (e cuidar da sua saúde mental) é se abrir para dúvida, para o outro.

Tempo de travessia


Parafraseando o poeta português Fernando Teixeira de Andrade, diria que vivemos um tempo em que precisamos abandonar nossas velhas certezas e nossas roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer aqueles caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos e a um passo da loucura.

Afinal, o que nos enlouquece não são as dúvidas, mas as certezas...

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Facebook e fact checkers, os novos "certificadores da verdade"?


Il est interdit d´interdire (pichação de rua em maio de 68, na França)
É proibido proibir (Caetano Veloso)


No dia 10 de abril de 1984 eu estava na Candelária. Em plena ditadura do presidente "prendo e arrebento" João Figueiredo, eu e mais de um milhão de pessoas estávamos nas ruas para pedir "Diretas Já"! Na mesma noite o jornal nacional, na TV Globo, não falou nada do comício. Só uma imagem dizendo que o "trânsito estava confuso no centro do Rio"... 

Nesta época, o que não saia no jornal Nacional ninguém sabia que tinha acontecido. A mídia era controlada pela censura e vivíamos um momento de monopólio da informação pela "grande imprensa"... As outras fontes de produção e distribuição da informação eram os sindicatos e organizações como UNE e partidos políticos. 

Bem antes disso, na idade média, bem menos gente tinha acesso a informação. Os textos eram manuscritos e poucas pessoas sabiam ler. A Bíblia era lida, interpretada e sua mensagem transmitida pelos membros da igreja. Quem tinha outra visão dos fatos era simplesmente excluído do convívio social, como Giordano Bruno e Galileu. Para a igreja, o que eles diziam era "fake news"...

Com a invenção da prensa e, posteriormente, com a massificação da alfabetização, as pessoas passaram a ter contato direto com o texto escrito e a leitura e interpretação da Bíblia foi desintermediada. Para desespero dos religiosos que controlavam a produção e disseminação do conteúdo. Os novos "donos da verdade" passaram a ser a grande imprensa, sindicatos e partidos políticos.


A internet e as redes sociais chegaram para bagunçar este coreto... Elas provocaram um "descontrole" da produção e distribuição das notícias e os antigos controladores da informação se sentem incomodados. 

A questão agora são as notícias falsas ("fake news") nas redes sociais, seus efeitos negativos e como combatê-las. O problema é real e cabem muitas discussões para diagnosticá-lo assim como podem existir muitas ideias para contorná-lo. A ideia do Facebook foi contratar agências de notícias, que eles chamam de "fact checkers" (verificadores dos fatos), que vão certificar se uma determinada notícia é falsa ou verdadeira e, dependendo desta avaliação, impedir ou não que ela circule nas redes. É a clássica solução de se tirar o sofá da sala para impedir a filha de namorar ou de matar o mensageiro que nos traz notícias ruins para tentar impedir que elas circulem...

Em primeiro lugar porque as "fake news" existem desde que o mundo é mundo. E a melhor forma de combater os boatos e notícias falsas é aumentar a descentralização da produção e distribuição da informação e não tentar controlar, centralizar e censurar. Os cientistas de dados e de redes já sabem que a melhor maneira de se combater um vírus na internet não é de centralizar a rede e criar "nós de controle", mas ao contrário, de deixar a rede livre e identificar os "hubs", nós centrais, que disseminam os vírus. Ao invés de contratar "fact checkers" para controlar a produção e disseminação de conteúdo, o facebook deveria é rastrear continuamente os "hubs" que disseminam notícias falsas. 

Em segundo lugar, porque a história está repleta de exemplos de que esta ideia de delegar a alguém o papel de "certificador da verdade" não dá certo, mesmo que você tenha, como no caso da igreja, o aval de Deus... E o argumento de que os "fact checkers" não vão censurar ou avaliar opiniões, mas "fatos" não se sustenta.

Vamos a um caso concreto: No dia 31 de agosto de 2016 o
 plenário do Senado, presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, aprovou , por 61 votos favoráveis e 20 contrários, o impeachment de Dilma Rousseff. Um fato. No entanto, algumas pessoas acharam que isto foi um "golpe" e disseminaram repetida e incansavelmente esta informação nas redes sociais. O que deveriam fazer as agências "certificadoras da verdade"? Bloquear a disseminação desta "fake news"? 


Ah, mas o caso da Marielle foi um absurdo! Falaram um monte de mentiras sobre ela! Verdade. As redes difundiram muitas mentiras sobre ela, sobre o Chico Buarque e outras pessoas. Qual o caminho nestes casos? Processar todos que publicaram ou disseminaram estas mentiras. Foi o que fez o Chico (com sucesso) e o que está fazendo a irmã da vereadora. 

O Facebook, se estivesse realmente interessado em restringir as notícias falsas, deveria era ajudar as vítimas a encontrar e processar todos os que contribuíram para a disseminação das calúnias e não tentar censurar a produção e disseminação de conteúdo. Porque é disso que se trata. Sob a capa de "combate às notícias falsas" o Facebook e estas agências passaram a controlar a produção e disseminação de conteúdo nas redes. Eles pretendem ser os "certificadores da verdade". 




É proibido proibir

A iniciativa do Facebook em parceria com estas agências é uma ameaça à liberdade de expressão. As pessoas de má fé que querem, deliberadamente, publicar e compartilhar mentiras, continuarão fazendo isto, com ou sem "Fact checkers". E vão encontrar novas formas de fazer suas mensagens driblarem os novos algoritmos e atingirem muita gente. Ou vocês acham que serão alguns jornalistas que vão analisar todo o conteúdo que será publicado durante as eleições e ir checando, uma a uma, as notícias e apurando sua veracidade? Quem vai fazer este trabalho de "certificação de autenticidade" serão algoritmos e pra cada algoritmo que o Face e as agências desenvolver vai ter um outro desenvolvido para quem quer disseminar notícias falsas.

As outras pessoas, que muitas vezes de boa fé compartilham notícias falsas pelas redes sociais, vão ter que ser "alfabetizadas" nesta nova realidade. Durante décadas fomos acostumados a consumir, sem nenhum distanciamento crítico, toda informação que nos chegava. Precisamos de um tempo para aprender a nos relacionar com as notícias que passaram a chegar por outras vias. 


Em qualquer situação a pior maneira de combater as notícias falsas é controlando a produção e disseminação de conteúdo. Isto é o que desejam Facebook, Google e cia. Eles pretendem ser os novos controladores da informação no mundo. Eu arriscaria dizer, inclusive, que a CIA consulta o Google antes de qualquer ação que ela pretenda fazer... E isto é MUITO grave. Estamos dando a empresas privadas, sem nenhum controle da sociedade o poder de decidir o que é verdade ou não, o que deve ser disseminado ou não. Que estas empresas queiram ser a novas donas do mundo é um direito delas. Cabe à sociedade impedir que isto aconteça. 

Mais do que nunca é hora de dizer: é proibido proibir!