quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Os extrovertidos que me perdoem...


"Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?" 
(Canção de Outono - Cecília Meirelles)

Empresas jornalísticas, de marketing, "fábricas" de software e outras que demandam criatividade de seus funcionários funcionam de forma irritantemente igual: espaços, abertos, sem paredes, onde todos seus funcionários podem se ver, conversar e interagir. Desde o início deste século este foi considerado o "ambiente ideal" para elas trabalharem. Nunca me vi trabalhando de forma eficiente num ambiente destes, mas como ninguém questionava esta unanimidade e eu sempre tive minha sala individual na Universidade, deixei este assunto para lá.
Até que recentemente caiu nas minhas mãos um estudo chamado "Coding War Games" (clique no link para acessar o estudo),  de Tom Demarco e Timothy Lister. Neste estudo eles avaliaram a performance de 600 programadores de mais de 90 companhias de informática. E constataram uma diferença significativa entre os profissionais: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, mais interessante ainda, as razões que normalmente são atribuídas àqueles de melhor desempenho, como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa, não explicavam o fenômeno.

Demarco e Lister perceberam que os melhores programadores tendiam a trabalhar em algumas empresas. Aprofundando sua investigação, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.

Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo eminentemente coletivo. E aí?

O cientista cognitivo David E. Meyer, diretor do Laboratório de cérebro, cognição e ação da Universidade de Michigan, nos dá uma pista. Segundo ele, "Quando se trata de qualquer operação não corriqueira, executar diversas tarefas ao mesmo tempo nos desconcentra, aumentando a chance de erro". Ou seja, a solução de problemas complexos exige concentração total. Na preparação deste trabalho, no entanto, quanto mais interagirmos com outras pessoas (de preferência com culturas e conhecimentos diferentes), mais estaremos criando as bases para um bom trabalho.

Não se trata de colocar uma coisa contra a outra. Precisamos das duas coisas: interação, troca, compartilhamento, mas também introversão, reflexão, introspecção. E temos que construir espaços e criar momentos onde estas duas situações possam acontecer.
Numa sociedade que valoriza cada vez mais a extroversão e a interação entre as pessoas, vale a pena parar para repensar nossos espaços de trabalho. Parafraseando Vinicius de Moraes, os extrovertidos que me perdoem, mas a introversão (também) é fundamental!




segunda-feira, 25 de junho de 2018

As certezas, os gurus e a loucura

"O que nos enlouquece não são as dúvidas, mas as certezas"... 
(Luiz Alberto Py - psicanalista)

"A maior riqueza do homem é sua incompletude" 
(Manoel de Barros - poeta)


Tenho uma péssima lembrança da minha primeira professora no colégio, Dona Marlene. Eu sou canhoto e era muito tímido e ela me fazia ir ao quadro, quase todos os dias, me obrigando a escrever com a mão direita, na frente de todo mundo. Era um desastre... 

Mas eu não me dobrei. Continuei escrevendo com a mão esquerda e desde então fiz um pacto comigo mesmo de nunca ser o que os outros queriam que eu fosse. Eu procuraria ser eu mesmo, ainda que isto me colocasse contra a maioria. 

Se por um lado isto sempre me ajudou a ter auto confiança, por outro me fez sempre achar que eu estava "incompleto", afinal se todos conseguiam escrever com a mão direita eu também deveria conseguir... Bem mais tarde é que eu fui perceber que, como diria o poeta, a nossa maior riqueza é nossa incompletude...

Quando nos achamos "completos" nos acomodamos, ficamos cheios de certezas, nos tornamos arrogantes e paramos de aprender. E a falta de curiosidade sobre a vida é a morte de um ser humano. 




Não admira, portanto, que um dos temas mais bem estudados pela psicanálise seja de como as certezas privam as pessoas de sua lucidez. Ao acreditarem cegamente em suas verdades, as pessoas se fecham para o outro, para as outras visões de mundo e se desconectam perigosamente da realidade. Como nos lembra o psicanalista Luiz Alberto Py, 
"Penso que sempre vale a pena valorizar o conhecimento dos fatos reais e entender a diferença entre uma constatação da realidade e uma mera opinião. É importante perceber com clareza a existência das armadilhas emocionais que, na nossa ambiciosa busca de certezas, nos levam a acreditar em ilusões como se fossem verdades inquestionáveis. Somente assim se torna possível evoluir na procura do conhecimento e também no aprimoramento da saúde mental".
Algumas pessoas não compreendem como muitos intelectuais persistem numa defesa cega de um ex-presidente da república condenado por corrupção. Muitas são as causas e os motivos desta idolatria, mas acredito que uma das razões principais é uma visão de mundo onde a dúvida é vista como sinal de fraqueza e as pessoas são julgadas pelo sua filiação à causa: se é do nosso partido é uma pessoa "perfeita", do bem, se não é do nosso grupo é uma pessoa do mal... Esta visão binária da mundo, que divide o mundo entre nós e eles, entre direita e esquerda é um dos principais entraves para o Brasil avançar rumo ao séulo XXI. Precisamos superá-la e uma das formas de se fazer isto (e cuidar da sua saúde mental) é se abrir para dúvida, para o outro.

Tempo de travessia


Parafraseando o poeta português Fernando Teixeira de Andrade, diria que vivemos um tempo em que precisamos abandonar nossas velhas certezas e nossas roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer aqueles caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos e a um passo da loucura.

Afinal, o que nos enlouquece não são as dúvidas, mas as certezas...

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Facebook e fact checkers, os novos "certificadores da verdade"?


Il est interdit d´interdire (pichação de rua em maio de 68, na França)
É proibido proibir (Caetano Veloso)


No dia 10 de abril de 1984 eu estava na Candelária. Em plena ditadura do presidente "prendo e arrebento" João Figueiredo, eu e mais de um milhão de pessoas estávamos nas ruas para pedir "Diretas Já"! Na mesma noite o jornal nacional, na TV Globo, não falou nada do comício. Só uma imagem dizendo que o "trânsito estava confuso no centro do Rio"... 

Nesta época, o que não saia no jornal Nacional ninguém sabia que tinha acontecido. A mídia era controlada pela censura e vivíamos um momento de monopólio da informação pela "grande imprensa"... As outras fontes de produção e distribuição da informação eram os sindicatos e organizações como UNE e partidos políticos. 

Bem antes disso, na idade média, bem menos gente tinha acesso a informação. Os textos eram manuscritos e poucas pessoas sabiam ler. A Bíblia era lida, interpretada e sua mensagem transmitida pelos membros da igreja. Quem tinha outra visão dos fatos era simplesmente excluído do convívio social, como Giordano Bruno e Galileu. Para a igreja, o que eles diziam era "fake news"...

Com a invenção da prensa e, posteriormente, com a massificação da alfabetização, as pessoas passaram a ter contato direto com o texto escrito e a leitura e interpretação da Bíblia foi desintermediada. Para desespero dos religiosos que controlavam a produção e disseminação do conteúdo. Os novos "donos da verdade" passaram a ser a grande imprensa, sindicatos e partidos políticos.


A internet e as redes sociais chegaram para bagunçar este coreto... Elas provocaram um "descontrole" da produção e distribuição das notícias e os antigos controladores da informação se sentem incomodados. 

A questão agora são as notícias falsas ("fake news") nas redes sociais, seus efeitos negativos e como combatê-las. O problema é real e cabem muitas discussões para diagnosticá-lo assim como podem existir muitas ideias para contorná-lo. A ideia do Facebook foi contratar agências de notícias, que eles chamam de "fact checkers" (verificadores dos fatos), que vão certificar se uma determinada notícia é falsa ou verdadeira e, dependendo desta avaliação, impedir ou não que ela circule nas redes. É a clássica solução de se tirar o sofá da sala para impedir a filha de namorar ou de matar o mensageiro que nos traz notícias ruins para tentar impedir que elas circulem...

Em primeiro lugar porque as "fake news" existem desde que o mundo é mundo. E a melhor forma de combater os boatos e notícias falsas é aumentar a descentralização da produção e distribuição da informação e não tentar controlar, centralizar e censurar. Os cientistas de dados e de redes já sabem que a melhor maneira de se combater um vírus na internet não é de centralizar a rede e criar "nós de controle", mas ao contrário, de deixar a rede livre e identificar os "hubs", nós centrais, que disseminam os vírus. Ao invés de contratar "fact checkers" para controlar a produção e disseminação de conteúdo, o facebook deveria é rastrear continuamente os "hubs" que disseminam notícias falsas. 

Em segundo lugar, porque a história está repleta de exemplos de que esta ideia de delegar a alguém o papel de "certificador da verdade" não dá certo, mesmo que você tenha, como no caso da igreja, o aval de Deus... E o argumento de que os "fact checkers" não vão censurar ou avaliar opiniões, mas "fatos" não se sustenta.

Vamos a um caso concreto: No dia 31 de agosto de 2016 o
 plenário do Senado, presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, aprovou , por 61 votos favoráveis e 20 contrários, o impeachment de Dilma Rousseff. Um fato. No entanto, algumas pessoas acharam que isto foi um "golpe" e disseminaram repetida e incansavelmente esta informação nas redes sociais. O que deveriam fazer as agências "certificadoras da verdade"? Bloquear a disseminação desta "fake news"? 


Ah, mas o caso da Marielle foi um absurdo! Falaram um monte de mentiras sobre ela! Verdade. As redes difundiram muitas mentiras sobre ela, sobre o Chico Buarque e outras pessoas. Qual o caminho nestes casos? Processar todos que publicaram ou disseminaram estas mentiras. Foi o que fez o Chico (com sucesso) e o que está fazendo a irmã da vereadora. 

O Facebook, se estivesse realmente interessado em restringir as notícias falsas, deveria era ajudar as vítimas a encontrar e processar todos os que contribuíram para a disseminação das calúnias e não tentar censurar a produção e disseminação de conteúdo. Porque é disso que se trata. Sob a capa de "combate às notícias falsas" o Facebook e estas agências passaram a controlar a produção e disseminação de conteúdo nas redes. Eles pretendem ser os "certificadores da verdade". 




É proibido proibir

A iniciativa do Facebook em parceria com estas agências é uma ameaça à liberdade de expressão. As pessoas de má fé que querem, deliberadamente, publicar e compartilhar mentiras, continuarão fazendo isto, com ou sem "Fact checkers". E vão encontrar novas formas de fazer suas mensagens driblarem os novos algoritmos e atingirem muita gente. Ou vocês acham que serão alguns jornalistas que vão analisar todo o conteúdo que será publicado durante as eleições e ir checando, uma a uma, as notícias e apurando sua veracidade? Quem vai fazer este trabalho de "certificação de autenticidade" serão algoritmos e pra cada algoritmo que o Face e as agências desenvolver vai ter um outro desenvolvido para quem quer disseminar notícias falsas.

As outras pessoas, que muitas vezes de boa fé compartilham notícias falsas pelas redes sociais, vão ter que ser "alfabetizadas" nesta nova realidade. Durante décadas fomos acostumados a consumir, sem nenhum distanciamento crítico, toda informação que nos chegava. Precisamos de um tempo para aprender a nos relacionar com as notícias que passaram a chegar por outras vias. 


Em qualquer situação a pior maneira de combater as notícias falsas é controlando a produção e disseminação de conteúdo. Isto é o que desejam Facebook, Google e cia. Eles pretendem ser os novos controladores da informação no mundo. Eu arriscaria dizer, inclusive, que a CIA consulta o Google antes de qualquer ação que ela pretenda fazer... E isto é MUITO grave. Estamos dando a empresas privadas, sem nenhum controle da sociedade o poder de decidir o que é verdade ou não, o que deve ser disseminado ou não. Que estas empresas queiram ser a novas donas do mundo é um direito delas. Cabe à sociedade impedir que isto aconteça. 

Mais do que nunca é hora de dizer: é proibido proibir!



quarta-feira, 14 de março de 2018

Para mudar a política é preciso ler as entrelinhas... e agir

Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas."
(Clarice Lispector)

"A topologia da rede determina o que podemos ou não fazer"
(Lazlo Barabási, pai da Ciência das Redes)

Pesquisa do IBOPE divulgada ontem aponta que 66% dos entrevistados disseram preferir votar em um candidato honesto mesmo que ele defenda políticas com as quais eles não concordem. Ela corrobora outra pesquisa que apontou a honestidade como prioridade para 72% dos eleitores.



Os jornais discutem diariamente uma suposta preferência dos eleitores por dois candidatos situados em polos opostos no espectro político, mas para mim os números relevantes das pesquisas são outros. São aqueles que estão nas entrelinhas. E estes números são claros: existe uma clara e majoritária insatisfação com os políticos, em geral, e com a forma de se fazer política no Brasil. Mais de 2/3 da sociedade não quer nenhum destes políticos e seus partidos.

Mas não basta trocar os políticos, precisamos mudar também a forma como se faz política no Brasil. 
Mexer na topologia da rede.

Como mexer na topologia da rede?
O tema é vasto: voto distrital (para diminuir o peso do dinheiro na eleição dos políticos e aproximá-los de seu eleitor), proibir a reeleição em qualquer nível (política não devia ser uma profissão...), acabar com privilégios de deputados e senadores (na aposentadoria, nos gastos autorizados para cada gabinete), mas eu escolheria dois, que do meu ponto de vista concentram a essência de como se faz política no Brasil:
# financiamento de partidos e campanhas 

# cargos e funções de confiança e gratificações

1) Financiamento de partidos e campanhas
No Brasil existem 35 partidos oficialmente registrados. Criar partido hoje, no Brasil, é um negócio extremamente lucrativo. Todos eles têm tempo gratuito na TV e, durante a campanha, vendem este tempo por fortunas para algum candidato e ainda usam o partido para arrecadar "legalmente" dinheiro das empresas. Na campanha de 2014 foram oficialmente declarados gastos de R$ 5 bilhões, sendo que 95% deste dinheiro veio de grandes empresas. Uma cifra imoral, ainda mais quando, graças à Lava Jato, sabemos que ela corresponde a menos da metade do que foi efetivamente gasto nas campanhas eleitorais e que a "doação" das empresas não foi um gesto de caridade...

Em 2014 o Fundo Partidário distribuiu R$ 363 milhões às bancadas de cada partido na Câmara dos Deputados, mas para 2018 a Câmara aprovou um fundo bilionário: R$ 1,7 bilhão! Um escárnio.  

Não adianta, no entanto, proibir a doação de dinheiro pelas empresas. É preciso também acabar com o financiamento dos partidos com recursos públicos. Partidos, campanhas, sindicatos e igrejas devem ser sustentados por contribuição individual de seus filiados e simpatizantes. Ponto. 

Vivi cinco anos na França e me surpreendi com a discrição das campanhas eleitorais. Não pode ter cartaz, distribuir propaganda nas ruas nem ter cabo eleitoral. Os partidos NÃO tem tempo gratuito na TV. A propaganda se faz com murais colocados pelas prefeituras em algumas praças onde cada partido cola UM cartaz com sua propaganda. E os partidos promovem encontros em clubes e outros locais para expor suas ideias aos eleitores. O resultado é uma campanha onde se gasta muito menos dinheiro, sem prejuízo do debate de ideias. 

Muitos dizem que “Isso vai inviabilizar as campanhas e os partidos”. Exatamente. É isto o que precisamos fazer: inviabilizar a forma como os partidos funcionam hoje em dia. Eles precisam funcionar de outra forma!

2) Cargos e funções de confiança e gratificações
Como um político como Eduardo Cunha ou Picciani se elege? Com uma campanha subterrânea, baseada em votos obtidos em comunidades carentes espalhadas em todo o Estado. E como eles chegam até estas milhares de comunidades onde se concentram 70% dos eleitores? Através de cabos eleitorais. Quem são estes cabos eleitorais? Muitos são funcionários públicos (concursados ou não). Mas não quaisquer funcionários públicos: Quase todos estes "funcionários" estão enquadrados numa categoria chamada de "cargos e funções de confiança e gratificações".

Quantos são?
Em 2000, só no governo federal, tínhamos 70 mil pessoas que ocupavam cargos públicos por "indicação" de algum político. Hoje são mais de 100 mil! Não existe paralelo em NENHUM PAÍS DO MUNDO! Na França e na Alemanha, por exemplo, são cerca de 500 cargos deste tipo. Se acrescentarmos os estados e municípios chegamos ao número estratosférico de mais 1 milhão de cargos e funções de confiança. Repito: 1 milhão!

Claro que nem toda pessoa que ocupa um cargo deste é cabo eleitoral de alguém e vários deles são funcionários concursados, mas cedidos para algum outro órgão. Tem gente séria também. Mas são a ínfima minoria. 

Alguns amigos alegam que acabar com estes cargos "inviabilizaria os governos, em todos os níveis". De novo, é exatamente o que precisamos fazer: inviabilizar a forma pela qual os governos governam. Precisamos de um Estado que funcione de outra forma, mais descentralizada, transparente e cidadã. 

Em resumo, se queremos realmente mudar a forma de se fazer política no Brasil vamos precisar punir exemplarmente os corruptos e não reeleger ninguém, mas isto não basta. Seria, como diria meu avô, mudar as moscas, mas mantendo a merda... Precisamos mudar este modelo político que permite que este esquema se reproduza, mesmo que se troquem as pessoas. 

Para isto:

# a política deveria ser financiada exclusivamente pelos filiados e simpatizantes
# deveríamos eliminar 90% dos cargos e funções de confiança e gratificações

Bora? 


terça-feira, 13 de março de 2018

A banana e o trabalho no século XXI


Agro é tudo?
Não, o conhecimento é tudo!


A banana quase desapareceu, na década de noventa, por causa de uma praga chamada sigatoka. A Embrapa desenvolveu uma nova espécie de banana, a banana princesa, que é resistente à praga e aumentou a produtividade em mais de 30%. A Embrapa não é uma empresa "agrícola". Ela é uma empresa de conhecimento e sem ela talvez Brasil estivesse hoje importando bananas...

Este início do século XXI é caracterizado por um aumento vertiginoso do número e da importância dos trabalhadores do conhecimento, em detrimento dos trabalhadores industriais e agrícolas. Segundo estudo feito pela McKinsey, nos últimos 100 anos a queda no número de trabalhadores agrícolas foi de 55,9% e de trabalhadores industriais 3,6% e foram os setores que mais perderam postos de trabalhadores. A expectativa é que nos próximos anos os trabalhadores do conhecimento, que já são a maioria, cheguem a mais de 90% da força de trabalho no mundo. 


Claro que a divisão deste trabalho é extremamente desigual. Se nada for feito, países como Brasil, China, Rússia e Índia ficariam responsáveis pelo trabalho "sujo" e de menor valor agregado (na indústria e na agricultura), deixando os postos que demandam trabalhadores mais qualificados para países mais desenvolvidos. O resultado é o que já estamos vendo: uma fuga de cérebros destes países em direção ao "primeiro mundo". 

Mas Brasil pode virar este jogo. Tem inteligência e competência em áreas como agricultura (a Embrapa é um exemplo), indústrias de ponta (como aviação, biotecnologia e tecnologia da informação), tecnologia para tirar petróleo em águas profundas (desenvolvida pela Coppe e a Petrobras) e serviços (como a indústria cultural e de entretenimento). Temos a maior eleição informatizada do planeta, o sistema financeiro com a melhor tecnologia da informação, uma entrega de declaração de imposto de renda totalmente informatizada (somos o único país onde isto acontece), o único país com carros com tecnologia flex (biocombustível, gasolina e gás) e uma empresa de aviação que concorre com o mundo todo como a Embraer. 

O que precisamos é de uma estratégia de desenvolvimento que nos coloque no século XXI e não a que adotamos, de fazer mais do mesmo. A hora é de virar o jogo em direção à sociedade do conhecimento.

Para preparar os profissionais deste novo tempo o Crie está lançando a 30a turma do MBKM (Master on Business and Knowledge Management), a pós-graduação lato sensu em Gestão do conhecimento e inteligência empresarial da Coppe/UFRJ. As aulas acontecem no fim de semana no centro da cidade e as pessoas interessadas poderão assistir a aula inaugural neste sábado, dia 17 de março. 

Maiores informações emhttp://bit.ly/1SuRgMV

Nos vemos por lá!

segunda-feira, 5 de março de 2018

A vida é complexa - liberdade, firmeza e generosidade


"Só precisamos de pés livres, 
de mãos dadas e 
de olhos bem abertos..." 
(Guimarães Rosa)

Se eu só lesse opiniões de quem concorda comigo, rapidamente me transformaria num idiota maior do que sou. Além de procurar fontes diversas, procuro não ter gurus nem me sentir obrigado a concordar ou discordar de alguém simplesmente porque ele é "da minha patota". Aliás, não tenho patota... Prefiro ser livre para pensar e construir minhas ideias em interação com qualquer pessoa, independente do "lado" em que ela está. E também acho que, ao contrário da falsa polarização promovida por marqueteiros e políticos, não existem apenas "dois lados". Felizmente o Brasil não se resume a esta dualidade forçada entre partidos ou pessoas "A" ou "B", entre "direita e esquerda". Temos muitos lados e a maioria da sociedade brasileira não se sente representada e nem sente necessidade de optar por um destes lados. Na verdade, para o mundo ser plural precisamos ser singulares. Precisamos ser nós mesmos e não simples seguidores de gurus ou de partidos.
Além disso, costumo ler um artigo ou uma opinião SEM saber quem escreveu. Formo minha opinião sobre o que li e só depois vejo quem escreveu e onde. Me importa o conteúdo do que está sendo dito, mesmo que eu, posteriormente, identifique que foi escrito por um autor de quem não costumo gostar do que escreve. Afinal, o conteúdo costuma ser mais importante que a embalagem...



Por isto o que mais me entristece não é ver o discurso (previsível) de um partido ou "líder", conclamando seus fieis. O que mais me entristece é a alienação cega de seus seguidores. 
Teremos tempos duros pela frente, que exigirão liberdade, firmeza e generosidade. Liberdade, porque a democracia deveria ser um valor universal, sem o qual nada mais pode existir. Firmeza porque os ratos (e as jararacas...) já deixaram claro que irão resistir até o fim. E generosidade porque a reconstrução do país vai exigir a participação de todos. Vamos precisar de todo mundo para tecer uma rede capaz de nos colocar na sociedade do conhecimento e no século XXI de forma sustentável e sem exclusões.

Como diria Guimarães Rosa, "só precisamos de pés livres, de mãos dadas e de olhos bem abertos". Não precisamos de falsos gurus e muito menos ainda de fanáticos seguidores que só conseguem ver e pensar o mundo com um pensamento binário. 

sábado, 23 de dezembro de 2017

O que importa não se mede com fita métrica

"Você não é de bugre?.

Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas.
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os araticuns maduros."  Manoel de Barros



Cresci com uma enorme vocação para ir contra o senso comum, as proibições, e ser do contra... Sempre achei que a poesia do Drummond que diz "quando nasci, um anjo torto me disse: vai Carlos, ser gauche na vida..." se aplicava perfeitamente a mim! Devo ter um anjo ou uma Iemanjá torta me dizendo sempre para seguir uns caminhos diferentes do que a maioria segue...
Quando todos pensavam em fazer vestibular pra engenharia, direito ou medicina, eu queria fazer matemática ou história. Trabalhei cinco anos no mercado financeiro e quando todos diziam para aproveitar, resolvi jogar tudo para o alto e ir fazer um doutorado na França.
Esta vocação de ser "gauche" sempre me fez pensar nas proibições como uma imposição externa necessariamente ruim, com o único propósito de nos limitar, controlar e diminuir.. Sempre achei que o homem só pudesse se desenvolver livre das amarras legais e morais. Hoje, graças a alguns amigos psicólogos e psicanalistas, acho que sem as proibições não teríamos nossa consciência de humanos. Não somos movidos apenas pelos instintos, como os animais. Ao nos controlarmos e nos impormos certos limites, ao suspender provisoriamente a satisfação dos desejos imediatos conseguimos ultrapassar a condição de animais e nos desenvolver como seres humanos. Ao mesmo tempo que estes limites contém, organizam, definem, eles também nos lançam para o ilimitado, nos fazem querer ultrapassar as barreiras, buscar ir mais além.

Mas se nossa vida fosse completamente regulada por proibições e leis perderíamos a espontaneidade e a alegria de viver. O excesso e a transgressão é que fazem que não possamos ser reduzidos a autômatos, a seres-objetos, sem vida. Tem um francês (Georges Bataille) que diz que o erotismo é a fusão dos corpos, a supressão dos limites, a suspensão do isolamento e da solidão. Mas não é somente a sexualidade que produz erotismo. O amor pode ser erótico (porque mesmo sem a fusão de corpos promove o encontro entre dois seres que buscam ir além de si mesmos); a arte e a poesia podem ser eróticas, na medida que promovem a transgressão das regras, a viagem pela imaginação. O que marca o erotismo, segundo o Bataille, é a relação do homem com a vida, é a possibilidade de vivermos a vida sem limites, mesmo que isto possa durar apenas alguns segundos, como num orgasmo, na satisfação de termos feito um trabalho bem feito ou na simples leitura de um poema.

Em resumo, talvez a grande contradição que vivemos em nosso processo de humanização é que precisamos de limites e regras para nos organizarmos, mas ao mesmo tempo precisamos suspender (mesmo que provisoriamente) estes limites. Precisamos exercer o excesso de vida que habita nossos corpos. Precisamos dar vazão à força e aos "vulcões" que nos habitam! Precisamos caminhar pelos desvios, por aqueles caminhos que nos farão ter surpresas e provar os araticuns maduros... E isto não é necessariamente contraditório com caminhar pelos caminhos já pavimentados, pelos lugares que já conhecemos e onde teremos menos surpresas. A escolha de um não anula a possibilidade de caminhar pelo outro.
Trata-se de um falso paradoxo.
Como também é falsamente paradoxal querermos enquadrar e rotular as pessoas, sem perceber que somos seres complexos. Eu, por exemplo, me considero um cara tímido e discreto, que (em geral) age calmamente, que gosta de ficar sozinho ou com pessoas muito próximas e curte o silêncio. Ao mesmo tempo, subo no banquinho pra falar quando vejo uma injustiça, me emociono, não suporto a rotina, e quero (quase sempre) mudar o status quo. Aos poucos vou entendendo que não sou uma coisa OU outra, mas as duas coisas. E que isto não é necessariamente contraditório ou antagônico mas, ao contrario, pode ser sinérgico. Os momentos de silêncio e reflexão me ajudam a perceber melhor o que são e pensam as pessoas e me ajudam a saber o que dizer em cima do banquinho... E tentar transformar a realidade me traz novas questões para pensar...
O século XX, a sociedade industrial e o modo de pensar dual e cartesiano nos acostumaram com a falsa ideia de que existe uma contradição entre teoria e prática, analisar e fazer, pensar e sentir. Este mundo industrial e este modo de pensar binário estão ficando pra trás. Os araticuns estão maduros. É hora de provar uma nova forma de viver, mais sistêmica, onde não tenhamos medo de afirmar a complexidade e a transitoriedade da vida e das relações humanas.
"Me procurei a vida toda e não me achei. Pelo que, fui salvo" (Manoel de Barros)

Estou convencido que só podemos dar nosso depoimento ao mundo através do exemplo concreto. Porque nenhuma mudança se dá só no discurso, ela exige um contato real, de experiência vivida a partir da emoção mais profunda. Só conseguimos sensibilizar os outros a partir dessa verdade vivida. E o amor, o dia a dia das organizações e a vida são feita de sucessos, alegrias, mas também de dores, cicatrizes que nos marcam profundamente, de coisas que a gente não controla, de um mistério que envolve a vida e que nem sempre pode ser desvendado. Frequentemente queremos apagar o que vivemos para começar de novo. Ano novo, vida nova!

Doce ilusão! A arte de viver talvez seja aprender a conviver com nossas dores. Ao invés de tentar negar ou colocar nossos problemas para baixo do tapete, deveríamos tentar incorporar, absorver, assumir como nossa esta experiência. Todos nós achamos que vivemos para chegar no paraíso. Ou, pelo menos, para chegar numa vida agradável e estável. Mas esta frase do Manuel de Barros nunca mais me saiu da cabeça, porque ela vai de encontro a esta visão: "Me procurei a vida inteira e não me achei. Pelo que fui salvo". Acho que o que Manuel de Barros está falando é da impermanência das coisas, do fato de que no momento que chegamos a algum lugar já estamos buscando outra coisa, já somos outra pessoa. Nunca voltamos ao mesmo lugar, às mesmas sensações. Nunca mais voltaremos a ser crianças. A sentir o que sentimos numa determinada situação. E isto não tem nada de ruim, ao contrário. É o sinal que estamos vivos, prontos para viver mais situações e emoções que podem ser tão ou mais intensas que aquelas que não queremos abandonar. E isto não significa que devemos esquecê-las. Mas incorporá-las. Conviver com elas.

Enfim, que neste momento de Natal e de fim de ano, onde todos fazem seus balanços de vida e se preparam para nascer de novo, nos mantenhamos na busca de nós mesmos. 

Se há uma "salvação", deve ser esta...