terça-feira, 31 de maio de 2016

Inovação, ciência e tecnologia: a persistência no erro

"Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos". (Nélson Rodrigues)

Pela sexta vez consecutiva o Brasil caiu no ranking de competitividade mundial. Estamos na 57a posição, atrás de Argentina, Colômbia, Peru, México e Qatar e à frente apenas de Venezuela, Mongólia, Ucrânia e Croácia, países que viveram ou vivem situações de conflitos intensos. 




Este resultado não é fruto do acaso ou de improvisos, é o resultado de anos de uma política equivocada de ciência, tecnologia e inovação. Em um artigo que escrevi junto com meu amigo André Pereira Neto (clique aqui para ver a íntegra do artigo) procuramos apontar as razões deste nosso atraso no desenvolvimento tecnológico e combater alguns mitos que nos impedem de atacar as causas de nosso atraso.

O primeiro mito: falta dinheiro

Não é verdade que faltem recursos para a ciência, tecnologia e inovação (CTI). Investimos apenas 1,3% do PIB em CTI, que é bem menos que a Coréia, Alemanha ou França, mas é mais ou equivalente ao que investem a China e o México. A diferença é que o retorno deste investimento para a sociedade é muito maior nestes países. Não temos prioridades e pulverizamos os recursos em mais de 30 áreas. Quem tem mais de 30 prioridades não tem nenhuma e o resultado é que ao invés de sermos muitos bons em algumas áreas, somos ruins em todas...

Segundo mito: Temos poucos doutores

A segunda falácia que repetimos sem analisarmos os números é de que formamos poucos doutores. O Brasil está formando cerca de 10.000 doutores por ano. É menos do que outros países com populações menores que a nossa, mas é muito mais que o nosso modelo de desenvolvimento consegue absorver. A maioria destes pesquisadores que obtém seu título de doutor vai trabalhar em áreas que não tem nada a ver com a pesquisa. O resultado é frustração pessoal e desperdício de recursos. Precisaríamos ter um outro modelo de desenvolvimento econômico, que valorizasse a inovação, e um outro enfoque na priorização da formação destes doutores, hoje, na sua maioria, da área de humanas.

Precisamos é mudar de rumo...

Não faltam recursos financeiros nem humanos. O que falta é uma estratégia adequada. Existe há alguns anos uma verdadeira ditadura do artigo indexado em revistas internacionais. Publicamos como nunca, em revistas que ninguém lê, porque o ÚNICO critério de avaliação de nossos pesquisadores é a publicação de artigos em revistas internacionais. Claro que este deve ser UM dos critérios, mas em nenhum lugar do mundo este é o único, e nem mesmo é o principal. Pelo simples fato de que hoje a função da publicação - que é de divulgar as ideias - é melhor executada pelas redes sociais. De fato, atribuir às revistas científicas, caras e pouco acessíveis, o papel principal na divulgação científica é um resquício do pensamento academicista dos séculos XIX e XX que não mais se aplicam no século XX. Continuarmos apostando neste dogma do artigo como único critério de avaliação é um desastre.

Esta persistência em políticas equivocadas de CTI está fazendo o Brasil recuar, de forma consistente e sistemática, nos ranking de competitividade e até mesmo nos de produção científica de qualidade. Publicamos muitos artigos, mas que são repetitivos e sem grande interesse para a comunidade internacional. O que importa é publicar muitos artigos, mesmo que eles sejam irrelevantes. Claro, com as raras exceções de sempre...

Precisamos de uma outra política, que avalie a produção científica a partir de critérios mais amplos e diversificados, que estreite os laços entre os centros de pesquisa e as empresas, e que valorize a produção de um conhecimento sintonizado com os problemas e demandas da sociedade. 

Enquanto isto não acontecer, vamos continuar a assistir a fuga dos cérebros para o exterior, a ver alguns abnegados brincando de fazer ciência e ao final, o país continuar caindo nos ranking de competitividade econômica e desenvolvimento social. 

Como nos lembra o grande Nélson Rodrigues, nosso subdesenvolvimento não acontece por acaso. É o resultado da nossa persistência no erro.

Está mais do que na hora de mudar nosso rumo. 


sábado, 28 de maio de 2016

Quem ficou bem nas fitas?

"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.
Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar que, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo". (Nélson Mandela)


Os poderosos estão tendo um medo que nunca tiveram antes. Com razão. Eles estão sendo investigados e punidos como nunca foram. Empreiteiros, doleiros, latifundiários, banqueiros e políticos se achavam imunes à lei. Hoje estão na cadeia. No silêncio e na escuridão dos palácios de Brasília arquitetavam seus planos e saqueavam o país sem que a sociedade pudesse reagir ou mesmo tomasse conhecimento das falcatruas. Pior ainda, alguns pensavam que o lula de 2016 era o lula de 2003 e que o poder dele e dos políticos era maior que o do povo, e que bastaria um estalar de dedos do líder messiânico para o povo correr em sua defesa...

Esqueceram-se de que os tempos agora são outros. As redes sociais, a participação popular, o fortalecimento da democracia e das instituições republicanas e uma nova geração de juízes, procuradores da república e policiais federais colocou Brasília de cabeça para baixo. Nunca se leu ou se falou tanto de política quanto agora. Temos mais observadores e comentaristas do que qualquer jornal ou revista jamais imaginou ou poderia ter. Só nos últimos cinco anos mais de 20 milhões de pessoas passaram a usar ativamente seus celulares e smartphones, deixando de serem meros leitores e espectadores para se tornarem produtores de um conteúdo cada vez mais amplo e diversificado. O Brasil está, cada vez mais, conhecendo a sua cara.

Claro que no meio desta abertura de comportas para a participação popular há de tudo, inclusive o indesejável e o abjeto. Como nos lembra a escritora Ana Maria Machado, "a cada um de nós a tarefa de filtrar a porcaria que não quer ingerir. E o cuidado de discernir o que visivelmente parte de uma origem única, pretendendo desviar o foco do que importa ou impor uma só forma de pensar e ver".

É exatamente a diversidade de opiniões que soma experiências, desnorteia os poderosos e fortalece a democracia. Quando era menino, jogava bola em diversos campinhos pelas ruas e morros de Laranjeiras. Quando tinha sede, bebia água na primeira bica ou jorro de água disponível. Devo ter ingeridos milhões de bactérias! Mas vivi 50 anos tendo poucas doenças e atribuo isto a estas bactérias e águas impuras... Beber de diversas fontes nos faz mais resistentes, mais plurais e fortalece a democracia.

Assim como o leito conduz os rios até o mar, a internet e as redes sociais foram o meio que viabilizou um salto de qualidade e quantidade na participação popular. Se antes os partidos políticos e sindicatos tinham o monopólio da mobilização popular, eles agora têm papel absolutamente secundário. E se esvaziam a olhos vistos. Os jovens tendem a não mais lhes prestar qualquer importância ou representatividade, e isto é um enorme avanço para a democracia. As pessoas deixam de ser tuteladas e passam a ser protagonistas de sua própria história. Precisam pensar com sua própria cabeça.

Esta nova realidade de uma presença popular não teleguiada pelos partidos e sindicatos se conjugou com uma nova geração de juízes, procuradores e policiais federais que fazem de forma séria e republicana seu trabalho para viabilizar uma operação que está fazendo uma revolução política no país: a operação Lava Jato. Os políticos, que antes tinham as rédeas do poder nas mãos, se sentem impotentes diante de gravações, documentos e processos absolutamente comprometedores, que levaram um deles a admitir que "não vai sobrar ninguém"...  

O Golpe era contra a Lava Jato

As últimas gravações demonstram claramente que os políticos de TODOS os partidos tramavam um golpe nos bastidores para, senão acabar com a Lava Jato, pelo menos "enquadrá-la dentro de limites aceitáveis"... Para isto, como nos lembra o mestre Zuenir Ventura, " a providência mais importante seria mudar a lei de delação premiada, responsável pelo explosão de uma bomba atrás da outra". E quem é o autor deste projeto de lei que Zuenir considera um golpe contra a Lava Jato? O Deputado Wadi Damous, do PT-RJ, que lula queria como Ministro da Justiça da presidente Dilma...

Mas o tiro saiu pela culatra... Ainda segundo Zuenir, "em lugar de extinguir ou enfraquecer a Lava Jato, fortaleceu-a, garantindo a sobrevivência e até mesmo o reforço da operação comandada por Sérgio Moro, pois os que foram apanhados arquitetando na sombra um plano contra ela tiveram que vir a público prometer defendê-la..."

Se os políticos e poderosos saem enfraquecidos deste processo, quem se fortaleceu? Quem ficou bem nas fitas? Para Zuenir, "o ministro Teori Zavascki e o procurador da República, Rodrigo Janot, foram os que mais ganharam prestígio e respeito (Moro é hors concours"). O primeiro foi considerado de "difícil acesso" pelos políticos e o segundo xingado de "mau caráter""... 



Além destes três, eu acho que o grande vencedor, quem mais ficou bem na fita foi o povo brasileiro. Em toda a sua diversidade. Sempre tivemos o complexo de vira-latas, nos consideramos incapazes. Mas, como disse Mandela, "Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta". As mobilizações de junho de 2013 e as que fizemos em relação ao impeachment (a favor ou contra) mostraram que os partidos e sindicatos não tem mais o monopólio da mobilização popular. Qualquer um de nós pode ser luz, pode ser protagonista da sua história, indo às ruas, batendo panela, escrevendo e postando nas redes... Estamos aprendendo que em rede podemos ser alguém com voz e presença e que podemos transformar a sociedade. 

Este é um caminho sem volta. "À medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo". Para desespero dos poderosos do século XX e do milênio passado, "É um rio de asfalto e gente que entorna pelas ladeiras e entope o meio fio. Na esquina mais de um milhão"... E é com toda esta gente gente gente que vamos mudar o Brasil.
 

 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O futuro não está escrito nas estrelas

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..." 
(Caetano Veloso)

"Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida".   

(Carlos Drummond de Andrade)

Nem tudo que tentamos fazer ou mudar dá certo, 
mas 100% das coisas que mudaram foi porque alguém tentou.


Estar no mundo é coexistir com uma variedade de visões, sentimentos e percepções. Para muitos de nós isto é motivo de angústia. Preferimos o conforto de nos cercar de quem pensa, sente e age como nós. 

Desde garoto que busquei outro caminho. Talvez porque meu anjo seja torto, eu convivia com várias tribos. Era um bom aluno, só tirava notas altas e ganhava medalha de ouro em "comportamento". Era um fortíssimo candidato, portanto, a sofrer bullying por parte dos meus colegas. Fui salvo pelo futebol. Como gostava e jogava bem futebol, era disputado pelos colegas para que eu jogasse no time deles. E com isso, eles toleravam que eu fosse um bom aluno... Eu participava do grêmio e do jornal do colégio, convivia no meio dos colegas politizados, mas adorava pegar jacaré na praia, o que me aproximava dos surfistas, que meus colegas intelectuais achavam "alienados"... 


Esta convivência com pessoas tão diversas não me deixava angustiado, ao contrário. Eu ficava fascinado de ver como os seres humanos são tão ricos e diferentes. O que me espantava era a incompreensão e o preconceito que percebia entre estes diversos grupos. 


Muita gente se espantou, com razão, assistindo nossos deputados votando ontem. Sinto informá-los que aquele circo é um retrato do Brasil. Olhar no espelho e perceber certas verdades certamente não é agradável, mas aceitar o desafio de ser quem somos é o primeiro passo para transformar a realidade. 


Para alguns amigos a dor é ainda maior, porque acreditavam piamente que o impeachment não seria aprovado. Era o que lhes garantiam todos os líderes nos quais eles acreditam. O maior deles, inclusive, considerado um grande articulador, passou a semana em Brasília "conversando" com dezenas de deputados. Deu no que deu. 


Por quê esta decepção?


No fechado círculo dos amigos, das notícias selecionadas de blogs e sites que reproduzem a mesma visão de mundo, não tinha espaço para a diversidade. Todos à sua volta eram unânimes em dizer "não vai ter golpe". Quem não fazia parte deste seleto grupo era "golpista" ou "coxinha". E estes eram evidentemente uma minoria... 


A realidade acabou por se impor. A realidade, quase sempre, acaba por se impor. Como disse Abraham Lincoln, "Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos o tempo todo".







Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Eu acho mais saudável e menos doloroso não apenas aceitar e valorizar, mas buscar a diversidade. E este é um exercício constante. Uso esta palavra - exercício - porque acho que ela nos remete a uma forma de viver e experimentar o mundo, de estar aberto aos outros e ao aprendizado. Quem faz ou executa tem certezas. Quem exercita está experimentando, aprendendo. 

A votação do impeachment fez o Brasil se ver no espelho e o retrato certamente não foi bonito. Ainda teremos um longo caminho para mudar, de fato, o Brasil. O início do fim desta era nos trará o enorme desafio de construir um novo caminho, sem líderes messiânicos ou salvadores da pátria. Mas só conseguiremos construir este novo rumo se tivermos clareza da direção que queremos seguir e se conseguirmos operacionalizar a mudança.

Para mim, a direção que devemos seguir é uma que busque unir justiça e a liberdade. 
Como disse o poeta uruguaio Eduardo Galeano, "o século XX divorciou a justiça da liberdade. A metade do mundo sacrificou a justiça em nome da liberdade e a outra sacrificou a liberdade em nome da justiça. Essa foi a tragédia do século passado. O desafio do século atual consiste, acho eu, em unir a essas duas irmãs siamesas que foram obrigadas a viver separadas: a justiça e a liberdade".


Mas não basta estarmos na direção correta. Para mudar precisamos criar as condições para que esta mudança ocorra. Precisamos operacionalizar, tornar viável este caminho. E ai, tentar construir o Brasil do século XXI com as estruturas representativas (sindicatos, partidos, etc) e as mídias (grande imprensa) do MILÊNIO PASSADO é dar murro em ponta de faca. Não vai dar certo.

O século XXI NÃO É MAIS o da sociedade industrial, hierárquica. No século passado, as manifestações eram organizadas pelos sindicatos e organizações como a UNE e o MST; a mídia era controlada pela TV Globo (o que não saía no jornal nacional ninguém comentava) e os conchavos de bastidores na política podiam acontecer sem que ninguém soubesse. O século XXI é o da sociedade do conhecimento, em rede. As manifestações não são mais controladas pelos sindicatos e aparelhos partidários; vide as manifestações de junho de 2013 e a ocupação das escolas pelos estudantes. Este novo século marca o desmoronamento das estruturas hierárquicas. Os partidos não representam mais a diversidade da sociedade, e as informações não são mais controladas pelos grandes órgãos de imprensa.

O que deixa os políticos, os sindicalistas e alguns intelectuais desesperados e achando que a "democracia está ameaçada" é justamente o fato de que a democracia não depende mais deles para acontecer. Eles não controlam mais a sociedade. Estamos encontrando novas formas de se organizar, de se informar e de se expressar, por fora dos atuais partidos, sindicatos e da "academia".

A mudança me parece inexorável. Elas vão acontecer APESAR das velhas estruturas e das velhas ideias, porque como diria Victor Hugo, "nada é mais poderoso que uma ideia cuja hora chegou". E o tempo da sociedade do conhecimento em rede chegou. Vamos construir as estruturas (redes) que nos levem a combinar justiça e liberdade e colocar o Brasil na sociedade do conhecimento. Não vai ser fácil, mas só depende de nós. O Brasil só vai mudar se cada um de nós fizer a sua parte. Se cada um dos nós desta imensa rede que estamos tecendo for ativo e autônomo, agindo no seu ritmo, com suas características, do seu jeito. 


Alguns leem e veem estas coisas e dizem "espero que você esteja certo". Se ficarmos esperando as coisas não vão mudar. As coisas só mudam se agirmos, se fizermos alguma coisa. Nem tudo que tentamos fazer ou mudar dá certo, mas 100% das coisas que mudaram foi porque alguém tentou....

O futuro não está escritos nas estrelas. Vamos contruí-lo, até porque "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".

Vamos nessa?

 .

domingo, 10 de abril de 2016

Não há reforma política sem acabar com os 100.000 cargos de "confiança"


Pouca gente sabe, mas no Brasil, a cada eleição, um novo governo pode nomear 100.000 funcionários sem concurso público.


Todos os dados aqui apresentados aqui são OFICIAIS. Constam do Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais. Este boletim sempre foi atualizado MENSALMENTE, mas sua última atualização foi em janeiro de 2016. Por um motivo até hoje não explicado, o Ministério do Planejamento parou de atualizar o boletim...



O que diz o boletim?

Que temos 2.200.000 funcionários públicos federais. Destes, 1.200.000 são ativos e um milhão aposentados e pensionistas.

O dado mais significativo, no entanto, é quanto aos ocupantes de Cargos e Funções de Confiança e Gratificações do Poder Executivo Federal (Administração Direta, Autarquia e Fundação). Estes são os cargos que cada governo, quando entra, tem disponíveis para negociar com seus aliados. Pelo que está descrito na seção 5 do Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais, do Ministério do Planejamento, estes cargos "podem ser ocupados por servidores com cargo efetivo, requisitados de outros órgãos ou esferas e sem vínculo com o Serviço Público".

O grifo é meu. As pessoas que são nomeadas para estes cargos podem ser funcionários públicos concursados (requisitados de outros órgãos) ou sem vínculo nenhum com o serviço público, ou seja, não concursados. Existem 47 funções que se enquadram nesta categoria. A mais conhecida e comentada é o "DAS" (Direção de Assessoramento Superior), mas existem várias "Funções Gratificadas" e "Funções e Cargos Comissionados". Em dezembro de 2015, o número de DAS era de 21.795, mas o total de Cargos e Funções de confiança era de absurdos 99.995!

Ocupantes de Cargos e funções de confiança e gratificações do poder executivo federal (pp 166)










1997
2000
2005
2010
2015










TOTAL
70.705
66.040
69.753
86.086
99.995











Entre 2000 e 2015 o número total de cargos comissionados cresceu 50%: de 66.040 para 99.995.

Mais significativo foi o crescimento da categoria "Estagiários". Não existia esta função até 2007. Em 2008 foram contratados 24.139 estagiários, mas estes chegaram, em 2015, ao impressionante número de 40.726! Com uma remuneração que pode chegar a alguns milhares de reais.

Em resumo, fala-se muito numa reforma do Estado e o foco tem sido a redução do número de ministérios. O impacto desta redução seria absolutamente desprezível se não for acompanhada por uma efetiva redução dos "Cargos e funções de confiança e gratificações". São eles a nossa maior aberração, quando comparamos com outros países. 

Temos 11 milhões de funcionários públicos federais, estaduais e municipais. Isto é muito, mas corresponde a 11% da população ativa, quando nos países da OCDE o percentual de funcionários públicos em relação à população ativa total é de 16,6%. É um mito, portanto, que temos MUITO funcionários públicos. O que acontece é que eles são muito mal distribuídos. Faltam professores e médicos, mas temos 26 assessores parlamentares (em média) por deputado, contra apenas 8 na França... 

E, sobretudo, temos 100.000 cargos a serem preenchidos a cada novo governo! Isto é ABSURDO! É MUITO superior aos outros países. Nos Estados Unidos são 8mil e na França e na Alemanha são cerca de 500 cargos. Estes cargos são de indicação política, e são eles que são usados nas barganhas que se fazem em Brasília.

Qualquer mudança séria na questão dos servidores públicos passa, portanto, não por uma redução no número de servidores CONCURSADOS, que está dentro dos padrões internacionais, mas de uma melhor distribuição destes funcionários e, sobretudo, enfrentarmos o loteamento destes 100.000 cargos (só no governo federal). Estes cargos de confiança deveriam sofrer uma redução drástica. Sem isto, qualquer “reforma política” será de fachada.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Taxistas e intelectuais num tempo de travessia

É você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Belchior

Nesta sexta feira os taxistas pararam o centro da cidade do Rio de Janeiro.
Durante horas, milhões de pessoas não puderam levar quem precisava nos hospitais, escolas ou chegaram atrasados em seus trabalhos. Tratava-se de um protesto contra o UBER. Para eles, esta nova forma de prestação de serviços é uma ameaça à forma como eles sempre trabalharam.

Também nesta semana, centenas de intelectuais assinaram manifestos e se mobilizaram "contra o golpe", em defesa do governo. 

Fiquei pensando no que leva as pessoas a defenderem o indefensável e me lembrei da célebre polêmica entre Camus e Sartre. Tanto um quanto o outro militaram na resistência francesa ao fascismo e se consideravam intelectuais de esquerda, mas divergiram frontalmente quando o mundo tomou conhecimento dos crimes cometidos por Stalin.

Embora Sartre reconhecesse e condenasse os massacres nos campos de concentração stalinistas, dizia que a única esperança dos pobres e o único caminho para mudar a ordem social era apoiar Stalin e o marxismo. Seu argumento tinha uma lógica: tratava-se de uma escolha entre o comunismo e o capitalismo. Não existia outra alternativa, ou melhor, qualquer outra alternativa se resumia, no fundo, a fazer esta escolha fundamental. Para Sartre, todo intelectual que ignorasse esta contradição que para ele era essencial era, na melhor das hipóteses um "inocente útil" que fazia o jogo do imperialismo. Dentro da sua visão de mundo, Sartre achava que o totalitarismo soviético era "um mal necessário" para fazer frente ao perverso capitalismo que condenava a maioria da humanidade à pobreza, a ignorância e à fome. Nestes contexto não havia neutralidade possível.


Camus enxergava o mundo de outra forma. Para ele, os fins não justificavam os meios. O terror de Stalin não era melhor que a barbárie de Hitler ou do sistema capitalista. Não existe uma ditadura boa e outra má. O terror, seja ele de direita ou de esquerda só nos leva a produzir monstros e monstruosidades como foram Hitler e Stálin. 

Mas o que têm a ver os taxistas, os intelectuais brasileiros que apoiam lula e o PT esta polêmica entre Camus e Sartre? 

Em todas estas situações estamos vendo um embate entre as velhas ideias, o mundo do século passado, e as novas ideias, o mundo do século XXI. 

Os taxistas querem defender o monopólio da prestação de um serviço que já encontrou novas formas de ser prestado. Sartre e nossos intelectuais estão presos a uma visão dual e maniqueísta de mundo. Para eles o mundo se resume a uma divisão entre esquerda e direita, entre quem é a favor ou contra o PT. A complexidade e a diversidade da vida atrapalham sua lógica. Eles precisam, permanentemente, criar inimigos reais (como o capitalismo) ou imaginários (como o golpe), para justificar o injustificável, para defender o indefensável.  

Como nos lembra a economista e escritora Eliana Cardoso, "Durante décadas, os intelectuais de esquerda negaram os crimes assustadores de Stálin na Rússia e de Mao na China. Hoje pensam que podem esconder a corrupção por trás de palavras de ordem repetidas em manifestações organizadas por sindicatos e pela militância petista. Não podem.

A mudança depende dos 70% que se declaram em oposição ao governo, a favor do impeachment da presidente e da continuidade das investigações. Presos os bandidos, talvez haja a possibilidade de renovação da política brasileira. Torço para que nossa convicção cívica nos mantenha acima da propaganda disseminada tanto por gente bem-intencionada quanto pelos bandidos que se pretendem acima da lei".



Modismos são passageiros. São coisas que o tempo leva. As transformações que estamos falando são de outro tipo. São transformações profundas, que vieram para ficar. Vivemos um tempo de travessia. Nestas horas é só uma questão de tempo. O novo sempre vem.