sábado, 13 de fevereiro de 2016

O futuro está escrito nas estrelas?

"O júri é muito simpático, mas é incompetente" (Caetano Veloso)
"O inferno são os outros" (personagem Garcin do texto Huis Clos - Entre quatro paredes, de Jean Paul Sartre) 

Esta semana a carta aberta aos brasileiros do escritor americano Mark Manson está provocando uma polêmica saudável: afinal estamos nesta situação por culpa nossa ou de outros?

Para Manson, a situação em que nos encontramos é responsabilidade nossa. De cada um de nós, brasileiros. Da nossa cultura, de nossas crenças e de nossa mentalidade. Em resumo, do que entendemos que é "ser brasileiro":
"É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoas da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas".
Fui pesquisar e encontrei este livro super interessante do professor Stephen Haber, da faculdade de ciências sociais de Stanford. A pesquisa do professor Haber traz um dado que me parece extremamente relevante: no início do século XIX, o PIB per capita do Brasil e dos Estados Unidos (EUA) eram equivalentes, mas um século depois ficamos para trás...


Por quê?

As razões que estudamos em nossos livros de história são várias: enquanto a independência americana abriu as portas para a industrialização americana, a nossa só fez reforçar nossa economia agrária, baseada no latifúndio e com baixa produtividade. O Barão de Mauá, que tentou industrializar o Brasil foi sumariamente boicotado pela elite agrária que mandava no país.

Um dado interessante. Na conquista do oeste americano, o governo de lá baixou uma lei onde quem comprovasse estar trabalhando na terra por cinco anos ganhava o título de propriedade, não importando sua nacionalidade. No Brasil, o governo se declarou o dono de todas as terras e as vendia para quem pagasse mais (ou fosse "amigo" do governo). O resultado destas escolhas distintas? No caso brasileiro, a política governamental promoveu os latifúndios improdutivos que caracterizaram o Brasil por mais de um século, enquanto nos EUA a produção e a riqueza se espalharam pelo país. Desde nossa fundação como nação independente escolhemos o paternalismo do Estado e uma forma de inserção na economia mundial como exportadores de commodities. O mais incrível não foi fazer esta escolha, mas permanecer com ela por mais de 200 anos...

Claro que muitos intelectuais brasileiros tentaram explicar esta situação de outra forma. Criamos, por exemplo, A Teoria de Dependência. Dentro desta visão, da qual fazem parte intelectuais renomados, como Celso Furtado, a razão principal do nosso atraso reside nos países desenvolvidos. Dentro da divisão internacional do trabalho, nos caberia a parte menos nobre e mais braçal (exportador agrícola). Curiosamente, esta escola do pensamento sempre se caracterizou por uma leitura da realidade eminentemente qualitativa, evitando o uso sistemático de dados quantitativos. O estudo do professor Haber traz dados quantitativos que, me parece, contribuem bastante para questionarmos algumas de nossas crenças e valores e a refletir sobre nossas escolhas no passado. 

Sempre aprendemos, por exemplo, que "somos subdesenvolvidos porque isso interessa aos países do primeiro mundo"; ou "que a culpa é do FMI (Fundo Monetário Internacional)" ou das multinacionais; ou ainda, "que fomos uma colônia de exploração, enquanto que os EUA foram uma colônia de povoamento"... Mas fomos "descobertos" e obtivemos nossa independência quase que ao mesmo tempo que os EUA e até o século XIX éramos tão desenvolvidos quanto eles. Por quê então resolvemos continuar sendo uma "colônia de exploração exportadora de commodities"? E por quê, mais de duzentos anos depois, persistimos nesta escolha?  

Para o instigante texto de Mark Manson, as razões não são só econômicas ou políticas. São culturais. Nós priorizamos nossos interesses pessoais e/ou a família em detrimento de outros membros da sociedade. Em outras culturas os interesses individuais são subordinados aos interesses da coletividade. Exemplo disto foi a forma como cada país estimulou o uso do solo. Nos EUA, quem estivesse produzindo ficava com a terra. No Brasil, o governo era o grande "pai" que estava ali para defender o interesse dos parentes e amigos em primeiro lugar... Como diz a carta aberta, 
"É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua família, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo".
Nem todos concordam com o escritor americano. Sua carta aberta provocou uma reação de muitos jornalistas e escritores brasileiros. Alguns, como este blog, atribuem nosso atraso a fatores externos a nós:
"Sendo a sociedade capitalista moderna global, não pode-se entender a infraestrutura brasileira sem entender a infraestrutura global. Isso coloca o Brasil no grupo dos países cuja competitividade no mercado internacional é limitada, não por incapacidade de seus habitantes de criar ou produzir, mas por condicionamento histórico: nossa infraestrutura não está plenamente desenvolvida, nosso desenvolvimento está atrasado".
Claro que vivemos num mundo cada vez mais interconectado e que estamos sujeitos a "condicionamentos históricos" e que nossa infraestrutura está submetida a "infraestrutura global". Mais ainda, cada um de nós tem uma percepção da realidade diferente da de outras pessoas. Podemos não concordar com a percepção de Mark Manson, mas para rebatê-la deveríamos apresentar dados que justifiquem nossa posição e não repetir generalidades ou verdades que não ajudam a problematizar e resolver nossos problemas. Culpar o "capitalismo internacional" ou "a ganância dos bancos e das multinacionais" pode ser uma bela maneira de culpar os outros (o inferno são os outros...), mas não nos ajuda a a avançar um centímetro...

Em 1968, durante os festivais de música, o Caetano Veloso foi entrevistado logo depois de perder o festival com sua música Alegria, Alegria e falou que os jurados eram "muito simpáticos, mas incompetentes"... Para mim esta frase é um retrato do nosso país. Somos um povo alegre, simpático e criativo, mas somos incompetentes. Não conseguimos transformar nossa criatividade em inovação. Não conseguimos criar e compartilhar valor entre toda a sociedade. Acredito que um dos motivos para isto é esta nossa mania de culpar os outros por nossos problemas. Precisamos aprender a encarar nossos problemas de frente, aprender com eles e construir um caminho novo para nosso futuro. Sem paternalismos e demagogias. Com trabalho, produtividade e o nosso diferencial: a alegria. Quem disse que para valorizar o esforço e o trabalho e sermos competitivos precisamos ser tristes e sorumbáticos? Podemos ser competitivos e alegres. Por que não?

Como nos lembra o escritor americano, 
"O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.
Ao contrario de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma".
Nossa alma é grande, diversa, criativa e generosa. Poucos povos conseguiram assimilar diferentes culturas como nós. Somos o resultado da mistura do índio americano, do negro africano e do branco europeu. Criamos o samba, a bossa nova e temos uma cultura rica e um enorme potencial que precisa ser melhor canalizado. Só depende de nós. Vamos parar de culpar os outros. Como nos lembra George Bernard Shaw "As pessoas estão sempre culpando suas circunstâncias pelo que elas são. Eu não acredito em circunstâncias. As pessoas que progridem neste mundo são as pessoas que se levantam e procuram pelas circunstâncias que elas querem, e, se elas não conseguem encontrá-las, elas as fazem".

O futuro não está escrito nas estrelas. 

Vamos construí-lo.

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Para compreender a nova economia

A economia compreende todas as atividades do país, mas nenhuma atividade do país compreende a economia... (Millor Fernandes)



Muita gente ainda duvida que estamos vivendo numa nova economia. E como não a compreendem preferem negá-la. Mas os dados estão aí para mostrar que estamos vivendo numa nova era: a era do conhecimento.

Em notícia publicada sem muito destaque nos jornais, soubemos que esta semana, pela primeira vez na história da humanidade as quatro maiores empresas do mundo são empresas da "nova economia": Google, Apple, Microsoft e Facebook. Esta última desbancou a Exxon Mobil (empresa de petróleo) e o conglomerado Berkshire Hathaway, do bilionário Warren Buffet.

Há dois anos o Crie lançou o curso de pós graduação Lato Sensu em Big Data Estratégico (WIDA) exatamente para capacitar pessoas para atuarem nesta nova economia. O curso foi desenhado para que tomadores de decisão em diversos níveis possam compreender os impactos do ambiente digital em seu negócio e prepará-los para usar os dados digitais para criar valor para suas empresas.






O informativo detalhado do curso está em http://pt.slideshare.net/marcoscavalcanti2/curso-big-data-estratgico-web-intelligence-and-digital-ambience e as pessoas interessadas podem enviar um email para wida@crie.ufrj.br 
O futuro não está escrito nas estrêlas. Venha construí-lo junto conosco.
 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

É carnaval! Tempo de inovação...

 Fantasia é um troço que o cara tira no carnaval (João Bosco)


Tenho uma certa dificuldade em lidar com datas onde um determinado sentimento deve prevalecer. O carnaval é uma delas. Nem sempre estamos felizes, mas é carnaval! Vamos festejar! Por outro lado, estas datas e eventos são parte da nossa cultura, nos ajudam a lidar com nossas frustrações e a nos dar um sentimento de pertencimento a uma coletividade. Sem estes eventos coletivos nos sentiríamos órfãos.

De qualquer forma, o carnaval é uma clara demonstração da criatividade do brasileiro. Uma vez fui com um amigo francês ver o desfile das escolas de samba. Fomos primeira à concentração para ele ver a escola se armando e foi visível sua frustração. O que vimos foi um monte de gente desengonçada, segurando suas alegorias e adereços, numa bagunça incrível. Quando passou a escola na avenida a cara do meu amigo não me sai da cabeça: um deslumbramento! Os olhos arregalados, o sorriso que não saia da cara... Ele ficou maravilhado! "Como é possível esta transformação?", me perguntou. Foi como se tivéssemos saído do caos e da feiura para a harmonia e a beleza. Em questão de minutos.

Outro exemplo de criatividade e inovação é a "Duduzela". Recebi do meu amigo Eduardo Fairban, renomado professor da COPPE/UFRJ este texto explicando sua criação:
 
"Em verdade para chegarmos è duduzela percorremos um grande caminho. Há uns três anos que eu vinha pensando em uma maneira de que as vozes pudessem soar mais fortemente sem utilizar recursos eletrônicos de amplificação. Era importante também que não fosse caro. Produzi um primeiro protótipo com cone de trânsito que emitiu bem, mas a Ignez Perdigão considerou que a emissão seria forte mas que não nos ouviríamos o que levaria a uma grande desafinação geral amplificada. Aí pensei em fazer um retorno com estetoscópio que verifiquei poderia ser comprado por alguma coisa como uns 13 reais. O "retorno" foi aprovado pela Ignez, e aí a Maristela Pessoa, designer, fez um protótipo já com todos os ingredientes que permitissem uma fabricação artesanal em tempo hábil e com robustez que não detonasse a duduzela no primeiro cortejo. Num sábado produzimos, com a ajuda do grande "bricoleur" Junho Francisco e com a participação ativíssima da Branca Americano, 25 megafones que já foram ensaiados pelo Ruy Oliveira no domingo e pela Ignez Perdigão na quinta-feira passada. A estréia foi na praça da General Glicério (apresentação pré-carnaval do Afluente do Céu) e em cortejo de rua no Boitatá domingo (ontem). Essa é a história da duduzela (junta dudu e maristela) , nome que eu não queria, mas que, como todo apelido, acaba pegando quando o apelidado reage".




Ainda não usei, mas os amigos que a usaram garantem que ela é um sucesso! E para os que consideram que esta é uma "inovação menor" lembro a história do bambolê. Quando o inventor do bambolê apresentou sua ideia ninguém o levou a sério e ele acabou ficando milionário com sua invenção...
 
Bom carnaval a tod@s! Com ou sem duduzela...



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A crise de governança e a revolução do conhecimento - convite para palestra gratuita

"No curso do caminho da minha vida cheguei a certeza de que as crises acontecem para evitar o pior. Como exprimir o que é o pior? O pior é ter atravessado a vida sem naufrágios, isto é, ter permanecido à superfície das coisas, ter dançado o baile das sombras, perdidos na inconsistência. Ter ficado aprisionados no pântano do diz que diz das aparências, dos lugares comuns e não ter sido jamais precipitado, não ter ido jamais até o
fim e até o fundo de uma dimensão profunda de si e das relações. Na falta de mestres, na sociedade em que vivemos, são as crises os grandes mestres que tem alguma coisa a ensinar-nos que podem ajudar-nos a penetrar noutra dimensão, na profundidade que dá sentido à vida." (Christiane Singer, escritora francesa)



Os orientais já nos ensinaram que é nos momentos de crise que aparecem as grandes oportunidades. É com este espírito que estamos lançando a 28a turma do MBKM (Master em Business and Knowledge Management) no Rio de Janeiro. O MBA em gestão do conhecimento e inteligência empresarial do Crie já formou mais de 800 gestores do conhecimento em todo o Brasil e este ano comemoramos o 18o aniversário do curso.

As pessoas interessadas em conhecer mais do curso estão convidados para a palestra "A Crise de Governança e a Revolução do Conhecimento, no dia 18 de fevereiro de 2016, às 12:30, no Centro da Cidade – RJ (chegando as 12h para um café de boas vindas). 

Embora a palestra seja gratuita, por problemas de espaço as pessoas precisam confirmar a presença através do email mbkm@crie.ufrj.br

P A L E S T R A  G R A T U I T A
A Crise de Governança e a Revolução do Conhecimento
Prof Marcos Cavalcanti
Data: QUinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Hora: 12h00 às 13h30

Local: RBC – AV. RIO BRANCO, 81/13oANDAR - CENTRO

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Inovação: um passo adiante e dois atrás?


O conhecimento é hoje o principal fator de produção. Segundo o Institute for the Future, na década de 90 cerca de 30% das exportações dos Estados Unidos (EUA) estavam relacionadas ao conhecimento enquanto os 70% restantes vinham dos outros fatores (terra, capital, trabalho e matéria prima). O Brasil optou por um modelo de desenvolvimento baseado em terra, matéria prima e trabalho. Fazia sentido no século XX, porque estes fatores sempre foram baratos e acessíveis para nós e eles eram relevantes e decisivos para se criar valor na sociedade industrial.. Não faz mais sentido no século XXI, na sociedade do conhecimento.
O resultado desta escolha é um dos fatores da nossa crise. Estamos perdendo capacidade competitiva porque nossos produtos e serviços têm um baixíssimo componente de tecnologia, conhecimento e inovação. Prova disso é que embora estejamos publicando muito artigos, o peso da economia brasileira no mundo está caindo. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), há trinta anos participávamos com 2,7% da produção industrial do mundo, e hoje, passamos a 1,8%. De acordo com o mesmo instituto, de 2003 a 2009, nossa produtividade caiu 1,7%, enquanto a da China cresceu 4,5% e a dos EUA 3,8%.

Por tudo isto o novo Marco Legal da Inovação, sancionado pela Presidente DIlma, foi saudado pela comunidade de inovação brasileira. Como salientado por Fernando Peregrino, neste excelente artigo, a lei foi aprovada por unanimidade no Congresso, e construída por mais de 70 entidades do setor. Apesar disso a presidente resolveu fazer cinco vetos que reduziram seu alcance.
Como salienta o Fernando, "Esses vetos atingiram poderosos mecanismos de incentivo ao salto visado, como o acesso de jovens de universidades privadas à bolsa para inovação, as micro empresas tecnológicas de usufruírem das compras governamentais, os profissionais e médicos residentes dos hospitais universitários de receberem bolsas de pesquisa, ao direito das fundações de apoio à justa remuneração pelo trabalho que prestam,e, por fim, em tempos do zika, a autonomia gerencial de entidades como a Fiocruz que fazem a pesquisa e a transforma em vacinas para doenças que acometem a nossa população. A luta para corrigir esses vetos em tempo será um exercício de negociação no qual todos compromissados com o novo Marco Legal devem participar. Sobretudo o Governo".
Por que fazer vetos num projeto que conseguiu uma rara unanimidade na sociedade brasileira? Triste constatar que num assunto crítico para a construção de nosso futuro, a inovação, estamos dando um passo adiante e dois passos atrás... Ainda dá tempo. Presidente Dilma, volte atrás em seus vetos e promulgue a lei como ela foi aprovada pelo Congresso.

O Brasil do século XXI precisa disso.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A felicidade se aprende?

As ideias geniais são óbvias

A lição sabemos de cor. Agora só nos resta aprender 
(Sol de Primavera - Beto Guedes)


Estudei a minha vida inteira no Colégio São Vicente de Paulo, um colégio católico no Rio de Janeiro. Tive a sorte de ter um professor de religião bem atípico, o Padre Dario, com quem tive várias discussões depois da aula, normalmente sobre coisas que eu não concordava sobre o que ele tinha nos ensinado. Uma destas foi sobre a necessidade de se rezar todas as noites. Quase todos meu colegas pediam coisas (passar de ano, ir bem na prova, ganhar um brinquedo...) e eu achava que Deus devia ter mais coisas para fazer do que se ocupar destas mesquinharias... Ele então me sugeriu rezar toda noite, antes de dormir dizendo simplesmente: "papai do céu obrigado pelo dia de hoje". Não era nenhum pedido. Só um agradecimento. O que eu não sabia era que este hábito acabaria me levando a pensar sobre a vida...

De fato, com o tempo, parei de "rezar", mas ficou o hábito de, no escuro, pensar sobre o que tinha feito, o que devia fazer e desejar que as pessoas fossem felizes. De lá pra cá um longo tempo se passou, mas constato que a busca da felicidade continua sendo o grande motor da espécie humana. A humanidade busca ser feliz há bilhões de anos e até hoje não achamos a fórmula mágica para isto. Sem ter como acompanhar a trajetória de cada um dos bilhões de seres ao longo de toda a sua vida, sem ter dados sobre isto, fica muito difícil estudar o comportamento humano e encontrar padrões que nos dessem pistas sobre os mecanismos complexos que nos trazem a felicidade.




Um gigantesco estudo realizado pela Universidade de Harvard (veja o vídeo!) parece que começa a desvendar os mistérios da felicidade e da vida saudável. Durante 75 anos eles acompanharam a vida de 724 pessoas e a conclusão maior deste estudo foi:


"As boas relações mantém-nos mais felizes e saudáveis. Ponto final."

Parece óbvio e é, mas como diz a citação no cabeçalho deste post, as ideias geniais são óbvias. São ideias que quando a gente ouve de alguém a gente diz: "mas isto é óbvio!". Era, mas ninguém tinha dito antes. Estava na cara de todos e ninguém tinha percebido. A genialidade está exatamente em perceber o que todos poderiam ter percebido mas não o fizeram. As ideias complicadas, que ninguém entende, não são geniais...

Além disso, embora todos desejem ser felizes, a maior parte das pessoas ainda associa a felicidade a ter coisas (que elas pedem em suas orações...) e não às relações humanas. Pesquisa recente com jovens que nasceram nos anos 80 e 90 (vejam o vídeo) perguntando quais seriam seus maiores objetivos na vida mostra que 70% deles querem ficar ricos; 50% querem ficar famosos e 30% desejam trabalhar em algo que os satisfaça e os tornem ricos e famosos... Não é a toa, portanto, que as pessoas estejam cada vez mais angustiadas e deprimidas. Os objetivos que elas têm para sua vida não ajudam a torná-las mais felizes.

O que devemos fazer então? Se o que nos fará felizes é termos relações verdadeiras, o que devíamos estar fazendo agora, para construirmos este futuro mais feliz e saudável? O estudo diz que a chave é termos boas relações. A grande questão é como construir estas relações verdadeiras? Onde colocar nosso tempo e energia?

O estudo conduzido por Harvard avançou nesta questão e concluiu que devíamos nos concentrar em três coisas:

  1. Devemos construir sólidas relações sociais (com amigos, família, comunidade). A solidão mata.
    • As pessoas que têm mais relações são mais felizes e vivem mais que as pessoas que não construíram estas relações. Não se trata aqui de ter muitos "contatos" e "conhecidos", mas de relações efetivas, onde há envolvimento físico e emocional. 
  2. Não basta o número de amigos ou termos (ou não) relações estáveis com alguém, mas da qualidade de nossas relações íntimas.
    • Relações estáveis e duradouras, mas conflituosas são muito ruins para a saúde e a felicidade das pessoas
  3. Relações de qualidade protegem nosso corpo (as pessoas são mais saudáveis), mas sobretudo, protegem nosso cérebro
    • Pessoas que mantém relações onde elas sentem que não podem confiar nas outras pessoas são as que tiveram um declínio muito mais acentuado da memória e doenças como Alzheimer.
Relações de qualidade ou ter boas relações não significa que elas são fáceis. Existem discussões e conflitos, mas enquanto sentirem que podem realmente contar um com o outro, estas discussões perdem relevância e ajudam a solidificar a relação. Confiança é um aspecto chave das boas relações. 

Isto tudo, como já disse, parece óbvio. Por que então é tão difícil construirmos estas relações, investindo tempo nisso e por que é tão fácil esquecer e ignorar esta obviedade? 

Porque somos humanos. O que gostaríamos mesmo é uma receita rápida de felicidade. Uma pílula que tomássemos e nos fizesse felizes para sempre... Construir relações verdadeiras é complicado, leva tempo, tem problemas. É difícil lidar com amigos, família, trabalhar, se ocupar com a comunidade à sua volta. Construir boas relações leva tempo, não é sensual, demanda esforço e persistência. Não é um esforço que façamos durante um tempo e depois podemos relaxar e esquecer. É um esforço constante, que dura a vida toda!

O que fazer? Como todo problema complexo, a construção de relações de qualidade é uma questão que não se resolve, demanda atenção constante, precisa ser gerenciada o tempo todo. Parece complicado, mas na verdade é simples e o estudo de Harvard aponta algumas atividade extremamente simples e eficazes:
  • Substituir uma parte do tempo que passamos diante de uma tela (de computador, de televisão, de um celular) por mais tempo em contato com pessoas e a natureza. 
  • Animar relações adormecidas fazendo qualquer coisa em conjunto, mesmo que isto seja um simples passeio à pé, uma viagem ou uma ida ao cinema
  • Falar com pessoas da família que você não vê há anos
  • Não guardar rancores ou raiva dos outros...
Em resumo, o estudo de Harvard mostra que felicidade e vida saudável não se compra na farmácia, não se pede (nem mesmo a Deus...), nem podem ser obtidas decorando-se alguma receita milagrosa. É um processo de construção diária e que envolve o estabelecimento de relações de qualidade. A lição de Harvard está dada. Agora só nos resta aprender.

Se todo dia você reservar alguns minutos para pensar sobre sua vida você encontrará o que você deve fazer para construir sua felicidade. Parecem passos pequenos, mas o estudo de Harvard mostrou que a felicidade é feita de coisas simples. Mesmo que elas durem pouco, estes momentos de felicidade é que farão que a gente viva mais e de forma saudável. Como a citação de Mark Twain feita no vídeo :
Não há tempo. Tão breve é a vida para a perdermos com discussões, desculpas, amarguras, prestações de conta...Só há tempo para amar. Mesmo que isto seja só um instante...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os incomodados é que mudam

"No princípio era o verbo" 
Abertura do Evangelho Segundo São João

"É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante"
Friedricht Nietzsche - Assim falou Zaratustra



Em 2003 resolvi passar o Carnaval em Tiradentes-MG. A ideia era curtir com calma um carnaval de rua numa cidade que é linda. Foi o caos. A cidade é invadida por milhares de pessoas que fazem questão de desfilar com seus possantes equipamentos de som instalados no carro tocando música bate-estaca. Nada de carnaval... Cansados da barulheira no centro da cidade, resolvemos visitar um parque natural, pertinho da cidade. De repente, dois carros invadem a reserva natural (que era proibida para automóveis), param bem no meio e colocam o barulho no volume máximo. Quando finalmente se cansaram e desligaram o som, eu aplaudi e disse: "obrigado, finalmente vamos poder ouvir a natureza"... Na mesma hora as famílias que lá estavam (e não conheciam os caras dos automóveis) me disseram que ali era uma praça pública e "os incomodados que se mudem". Não adiantou nada eu tentar dizer que exatamente porque era um espaço público não dá pra cada um fazer o que quer. Os jovens da bate-estaca se sentiram encorajados e vieram com um cano em minha direção! Achei melhor sair correndo...

"Os incomodados que se mudem"
Esta frase eu não ouvi só em Tiradentes. Ela é parte do senso comum. A maioria das pessoas acha que o espaço público é a casa da mãe Joana onde cada um faz o que quer. Vai demorar algum tempo e muita discussão para mudar esta percepção que é uma das fontes de nosso atraso enquanto país.

Na verdade, esta frase contém dois equívocos. Em primeiro lugar porque a minha liberdade acaba onde começa a do meu semelhante. Se o que faço está incomodando os outros, não são os incomodados que devem ir embora. Precisamos entrar num acordo. Em segundo lugar, porque como diria meu avô: os incomodados é que mudam... 

Todas as transformações que ocorreram e ocorrem no mundo só aconteceram e acontecem porque alguém, ou um grupo de pessoas, se sentiu incomodado. E quis mudar. Os conformados não mudam nada.  Como diria Kerouac, só as pessoas loucas o bastante para acharem que podem mudar o mundo é que conseguem fazê-lo.
"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que vêem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o status quo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo." Jack Kerouac

No princípio era o verbo (e a imaginação...)
Quando era menino. me lembro de uma conversa que tive com meu avô que mudou minha vida. Eu estava triste porque não tinha um brinquedo que eu queria muito (acho que era um autorama...) e ele me disse: "Deus criou o mundo a partir do nada. Só com sua imaginação. Invente seus brinquedos"! Saí dali correndo para o morro que tinha atrás do prédio que morava em Laranjeiras e junto com meus amigos construíamos casas nas árvores, carrinhos de rolimã e times de botão.

Não foi só a dica do meu avô. Se eu estivesse conformado com a situação eu simplesmente não faria nada. É preciso estar inconformado, incomodado. É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz novas ideias. 

Começamos 2016 com um sentimento de pessimismo e desesperança. Mas muitos de nós estão informados. Buscando alternativas. Parece que não temos nada, mas tudo começa do nada. Se não temos nada já temos tudo que precisamos...